Margarida e eu.

O convite não vai chegar, mas teimamos em esperar. Com afinco, aguardamos poder voltar a caminhar na cidade, sem medo. Com a cabeça um bocadinho mais erguida do que quando chegamos.

Margarida Luís espera um convite.

Sentada nas escadas de pedra que sobem até à Igreja, balouça as perninhas de alicate.

A Margarida sempre fui eu. O pseudónimo que comecei a usar para poder escrever e receber pequenos trunfos com a verdade. Esperei que ela me trouxesse sucesso e com ela esperei pelo convite que ainda não chegou.

Estamos as duas sentadas nas escadas que coabitam com as folhas que começam uma nova viagem, nesta cidade que já não é a nossa.
As pequenas rajadas de vento que fazem dançar o cabelo e lacrimejar os olhos, não são mais do que pequenos indícios de já não somos bem-vindas.

O convite não vai chegar, mas teimamos em esperar. Com afinco, aguardamos poder voltar a caminhar na cidade, sem medo. Com a cabeça um bocadinho mais erguida do que quando chegamos.
Abastecemos o carro com medo, fizemos o caminho e quando chegamos não havia ninguém para nos saudar.

A Margarida pega numa folha, começa a desfazê-la em pequenos pedaços e diz-me que quer ir para casa. O meu subconsciente é a Margarida. Enche-me de medo e começa a conduzir as minhas pernas para algum lugar fechado ou longe dos olhos de todos os que nos possam conhecer.

Gostava de concretizar o pequeno desejo dela mas temos de continuar. Não podemos esperar. Sozinhas vamos caminhar por entre todos, ver caras familiares, corar quando nos fizermos notar e momentaneamente fundir-nos.

A cidade acabará por nos aceitar. A cidade vai ser nossa outra vez e poderemos respirar e coexistir. O convite ficará esquecido e não teremos receio.

Afinal do que é que estou á espera para começar a viver? Não é a primeira vez que começo do zero. Eu sempre gostei de começos. Não posso esconder-me atrás da Margarida. Ela sou eu. Temos os mesmo corpo.

Vamos ser reconhecidas. Já passaram tantos anos. Ninguém se irá lembrar de nós.

Faço pressão nos pés, para com confiança me levantar e começar a andar.

Contra o vento subimos as partes movimentadas da cidade e olhamos de frente o medo.

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