semana 1

Sem convite

Mas eu não estava pronta para abdicar do meu sonho e se os convites não chegavam eu faria mais uma vez impor a minha presença. E foi assim que a porta grande se abriu para mim, com tudo o que isso acarreta, sensação de dever cumprido inclusive. E durante muitos anos vivi o meu sonho.

Durante muitos anos eu sonhei com isto. Desde aquele dia em que se fez luz. “Querer é poder”, dizia-me a minha mãe, “Só não podemos ficar sentados à espera, há que trabalhar para isso”, e foi o que fiz. Não fiquei à espera de convite! Bati a todas as portas até que os nós dos dedos da alma já me doíam de tantos nãos. Trabalhei muito, trabalhei de graça. Ouvi risinhos nas minhas costas e fui forçada a responder com um sorriso, e seguir, fazendo de conta ter comprado aquela simpatia diplomática mal disfarçada.

Um dia apareceu uma oportunidade e eu agarrei. Não era uma oportunidade de ouro, não era uma entrada triunfal. Não era a porta da frente. Mas era uma entrada, estava desbloqueada e aproveitei. Durante anos fiz dela o melhor que pude, dentro das limitações que a própria me impunha. Até ao dia em que essas limitações me foram atribuídas. E a porta fechou.

Mas eu não estava pronta para abdicar do meu sonho e se os convites não chegavam eu faria mais uma vez impor a minha presença. E foi assim que a porta grande se abriu para mim, com tudo o que isso acarreta, sensação de dever cumprido inclusive. E durante muitos anos vivi o meu sonho. O sonho de uma vida. Aquilo que era a coisa mais importante para mim. Comi, bebi, respirei o meu sonho, e julgava que nada mais importava na vida. Julguei que o que fazia era tão importante que o mundo parava se eu não o atendesse nesse instante, se eu parasse! Não suportava a ideia de perder este bebé que tão bem embalava nos meus braços e que não passava a mais ninguém. Não percebia como é que outros se contentavam com menos do que isto.

Mas o tempo passou e trouxe consigo a sua velha mania de nos mudar a perspetiva. Chegou o amor, a casa e os filhos. E antes disso tudo já a desilusão se instalara também. O mundo parecia girar comigo ou sem mim. E de repente aquilo que nunca incomodará passou a chatear. Os pedaços unidos por trapos teimavam em querer se separar, aquilo que antes era diversão começou a soar a trabalho e até a falta dele começou a fazer mossa.
Foi então que aconteceu aquilo que nunca imaginei ser possível: o desencantamento, o desamor… Aquilo que quiserem chamar ao processo de nos desapaixonarmos. A certeza que a partir daqui este deixava de ser o meu sonho e passava de certeza a ser sonho de outra pessoa qualquer.

Há já algum tempo que sinto esta vontade de mudar, de avançar, de olhar em outras direções. Mas a vida já não é a mesma. Já não é a solo, sem obrigações. Por isso deixo-me ficar. Pode não ser um sonho, mas é quente, abrigado e seguro. Tenho medo de partir porque não conheço o caminho, nem tenho destino concreto e sinto que o tempo de parar para escolher ficou lá atrás. O peso da sociedade está em cima dos meus ombros se arrisco pensar que ainda tenho o direito de voltar atrás, pensar e mudar de ideias. E toda a gente me diz que os nós das minhas mãos já não aguentariam bater em novas portas. Por isso aqui estou, a viver o meu sonho contrariada e a rezar todas as noites, por um motivo que me tire daqui. Se ao menos tivesse um convite…

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