Primeiro passo

Penso nos locais da cidade que mais me encantam e que provavelmente escolheria para o reencontro, se ela concordasse. Penso no chá que escolheria e por onde começaria a reconstruir a ponte entre nós.

“Perguntar não ofende” é, talvez, a maior mentira que me podem dizer. Acreditei até certa altura, até que os papeis se inverteram.
Há perguntas que se sentem como uma autêntica chapada na cara.
Perguntas que têm ainda mais força do que uma afirmação, que te desconcentram, abalam o teu mundo e te fazem parar e meter a mão na consciência.

“De que estás à espera?”

É essa. Odeio essa pergunta, porque é uma acusação.

Em apenas cinco palavras, avisa-me de que a culpa por alguma coisa não estar a correr como desejo é unicamente minha. Diz-me que não estou a ter iniciativa nem coragem de tornar os meus desejos realidade.
E odeio-a por isso, por ter razão.

Será?

Lá porque me custa desligar do passado, não quer dizer que os outros sintam o mesmo.
E lá porque a memória dos seus rostos, nomes e cumplicidades ainda habitam o meu mundo, não quer dizer que eu habite o deles.

Por vezes – mais do que aquelas que estou disposta a admitir – imagino o nosso reencontro.
Penso nos locais da cidade que mais me encantam e que provavelmente escolheria para o reencontro, se ela concordasse. Penso no chá que escolheria e por onde começaria a reconstruir a ponte entre nós.
Dou por mim a pensar se ela ainda fuma e se preferiria que o encontro tivesse lugar numa esplanada. E, se não for e ela quiser ir lá fora fumar, pergunto-me se devo ir com ela ou esperar à mesa. Não conheço bem a etiqueta nestas situações tão específicas.

E depois?

Faço-lhe um relato resumido destes últimos dez anos?
Vou directa ao assunto e foco-me no aqui e agora e no ando a fazer ultimamente, como se a minha vida fosse uma daquelas séries que não têm qualquer ligação de um episódio para o outro?
Menciono alguma das muitas coisas que ambas adorávamos e que tínhamos em comum quando éramos novinhas?

Porque será que tudo me parece tão má ideia? E porque é que ela se haveria de importar com isso?

Já nem me conhece. Nem eu a conheço.

Se quisesse saber alguma coisa, perguntava-me. Duvido que ainda tenha o meu número, mas mandava-me email ou uma mensagem por uma rede social qualquer.

Ou então envio eu um dia destes.
Agora não, que não vai dar jeito nos próximos tempos, mas lá pelo Natal… Sim, porque não?

Até lá, vou esperar mais um bocadinho. Pode ser que sim, que surja um convite. Nunca se sabe. Mas, desta vez, – por uma vez que seja – não depende só de mim.

Catarina Alves de Sousa

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