semana 1

Caixa de Correio

E como em tudo na vida, esperava o pôr-do-sol, o exacto segundo em que o sol se deita na água, junto ao horizonte, para lhe falar. Mas o lusco-fusco escorregava-lhe por entre as pálpebras, ele fechava os olhos porque lhe fazia confusão na íris e, num segundo, já era de noite e tinha de esperar até ao final do dia seguinte.

Xavier perguntava-se porque é que nunca tinha sido convidado a viver. Não recebera um convite, um telefonema, nem sequer uma nota rabiscada num post-it. Tinha 83 anos e consultava o correio pelo menos uma vez por dia, mesmo ao Domingo – e toda a gente sabe que ao Domingo não há cá cartas para ninguém, que é quando os carteiros pousam as maletas e tiram o chapéu, vão à missa e almoçam com a família.

Já em miúdo era normal encontrá-lo à espera, sentado no banco mais próximo, por vezes no chão, com as pernitas à chinês. E ouvia os chamamentos dos outros:

Dá o salto, Xavier, dá o salto.

Arrisca, rapaz, olha que quem não arrisca…

Assim foi durante a infância e adolescência, até que entrou directamente para a lista de espera da idade adulta. Tudo lhe parecia um motivo para não dar um passo em frente – afinal não era o momento certo, nem tinha recebido nenhuma indicação formal da vida para entrar em palco.

Às vezes a culpa era das próprias condições climatéricas, pouco ou nada propícias à prática da vida, como se a vida fosse um desporto que se pudesse praticar só quando nos apetece.

Se chovia, aguardava o momento certo para abrir o guarda-chuva. Xavier passava pelas gotas dos dias enquanto esperava a altura certa. Ainda é só aquela chuvinha molha-parvos, ainda não se justifica e, enquanto ia nesta conversa consigo mesmo, chegava ao destino de meias, camisola interior e alma completamente encharcadas.

Põe-te a jeito, Xavier, diziam-lhe. Atira-te para o meio da estrada, causa acidentes, vive um bocadinho. Mas ele, nada: preferia aguardar que chegasse a sua vez.

Um dia, numa das suas esperas, conheceu Marisol. Conheceu, mas só de nome. E que nome bonito, pensava Xavier, junta o melhor que há no chão com o que de melhor há no céu.

E como em tudo na vida, esperava o pôr-do-sol, o exacto segundo em que o sol se deita na água, junto ao horizonte, para lhe falar. Mas o lusco-fusco escorregava-lhe por entre as pálpebras, ele fechava os olhos porque lhe fazia confusão na íris e, num segundo, já era de noite e tinha de esperar até ao final do dia seguinte.

Recebeu o convite que tanto esperava entre as marés e o anoitecer, deixava-o fugir, mas continuava a procurá-lo todos os dias na caixa de correio.

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