Caminhos Cruzados

O último mês tinha passado num ápice desde o dia em que me encontrara com ele à saída do comboio expresso para Munique. O nosso olhar cruzou-se por um momento e imaginei que o brilho nos olhos dele eram sinal de reconhecimento, antes de o perder na multidão.

– Do que estás à espera? – perguntou-me.

Ao fundo do corredor, vi-o espreitar de outra divisão. O cabelo desalinhado como sempre, barba bem aparada e as mangas da camisa arregaçadas.

– Podes entrar!

Obedeci, enquanto procurava recompor-me do subido sentimento de irrealidade perante aquela situação. O meu coração batia descompassadamente.

O último mês tinha passado num ápice desde o dia em que me encontrara com ele à saída do comboio expresso para Munique. O nosso olhar cruzou-se por um momento e imaginei que o brilho nos olhos dele eram sinal de reconhecimento, antes de o perder na multidão. Não fossem demasiadas coincidências, quase me recusei a acreditar que ele era o novo director de produção da empresa e que teríamos uma reunião nessa mesma tarde. Eu saía quase todos os um pouco mais cedo do que ele, e dei por mim a arrumar o escritório demoradamente, para me cruzar com ele à sáida da empresa. Resultava, frequentemente. Começou a convidar-me para beber café, todos os dias, por essa hora; não nos demorávamos.

Frequentemente, um de nós estava acompanhado por outro colega. Após cinco anos sem o ver, o facto de passar a estar com ele quase todos dias, fizera-me admitir ainda sabia os seus gestos de cor, a forma como mexia o café nos dois sentidos (apesar de se recusar a pôr açúcar) antes de pegar na chávena com a mão esquerda, para a levar aos lábios…

As conversas que tínhamos durante esses escassos momentos nunca me satisfaziam a curiosidade, e não pareciam satisfazer a dele; conversávamos sobre assuntos banais, que não transmitiam o reencontro de velhos amigos de faculdade, aliás, os melhores amigos. Um reencontro muito improvável, dado estarmos tão longe de Lisboa, a cidade que nos acolheu nos nossos anos de estudantes. Eu estava a tentar banalizar o impacto que aquele estranho acaso tinha tido em mim, não fosse o facto de eu acreditar que o destino me estava a pregar uma partida; que me estava a tentar “tramar a vida”, numa altura em que sentia que estava no auge da minha carreira, que nunca tinha sido tão forte e independente,…

Quando me convidou para jantar na sua casa, aceitei mais depressa do que gostaria.

Pendurei a capa no bengaleiro junto à mesa da entrada e encaminhei-me na direcção onde, deliciada com o facto de o som maravilhoso de água a cair – de alguma fonte invisível, imaginei, visto que não chovia há dias – abafava o som dos meus sapatos de salto a bater no soalho de madeira nova.

– Estranhei que a porta já estivesse aberta, pensei que me podia ter enganado na casa. Como sabias que era eu? – perguntei, audivelmente.

– Não consegues ser propriamente discreta – ouvi-o responder com o seu habitual sarcasmo; ri-me para comigo pensando que ele tinha razão. Afinal, saíra disparada do elevador pouco tempo antes, depois de ter percebido que estava meia hora atrasada, mesmo tendo vindo directa do trabalho e trocado de roupa no escritório. Ele detesta atrasos – recordei-me, reconhecendo que nunca fui especialmente boa a cumprir horários. Chegara com duas malas a baloiçar no braço direito, chaves do carro a tintilar. Ainda ofegava quando empurrei a porta, entreaberta do nº26. Passei do corredor mal iluminado com paredes de pedra, de onde, percebi depois, brotava a água cujo som me encantara, para a divisão mais ampla e iluminada da sala. O ar cheirava à lenha que crepitava na lareira e a algo mais – tomilho – pareceu-me. Esperei que acabasse de colocar os pratos na mesa e a rodeasse para me beijar o rosto. A sensação de um toque familiar assustou-me tanto quanto me surpreendeu.

– Bonita casa! – comentei. Não era um adjectivo suficiente para exprimir o que estava a achar do espaço em meu redor; pelo pouco que vira, a casa podia muito bem ser parte do andar de um qualquer hotel luxuoso. Estava a ter dificuldade em assimilar todos os elementos daquela divisão em particular, que a tornavam simultaneamente acolhedora e intimista. Um sofá em “U” fora estrategicamente colocado em frente a uma televisão de ecrã plano, sobre uma tapeçaria com um aspecto oriental. Num dos cantos, um lindo piano de cauda com a superfície brilhante (ele teria voltado a ter lições de piano?). Aqui e ali, plantas dispersas, que pareciam ter sido colocadas exactamente onde deviam. Contudo, o que mais me impressionou foi a parede envidraçada, que me fez sentir vertigens só por um momento; estava num décimo andar, aparentemente suspensa sobre a cidade e perante uma vista de tirar a respiração. Suspirei mais audivelmente do que gostaria e ele riu-se da minha incredibilidade.

– Estou a cozinhar, um prato marroquino, mas podemos encomendar antes pizza, se quiseres.

Foi a minha vez de ser sarcástica.

– Acho que dos teus cozinhados até tinha saudades.

Segui-o para a cozinha, igualmente espaçosa e constatei que estava também impecavelmente limpa, o que só me fazia sentir pior acerca do caos em que estava a minha. Peguei numa colher de madeira para mexer o refogado cujo aroma era delicioso e levei a colher aos lábios. Arrependi-me imediatamente de o ter feito porque deixei a mesma cair, derramando o conteúdo na minha camisola. Ruborizei quando ele reagiu com gargalhadas sonoras, enquanto molhava um pano para me ajudar a limpar.

Sem conseguir evitar rir também, recusei a ajuda, agradecendo-me mentalmente o facto de me conhecer ao ponto de achar boa ideia trazer outra camisa na mala. Troquei rapidamente e apressei-me a juntar-me a ele, que enchera então dois cálices de vinho tinto e se sentara à mesa, com as nossas cadeiras, lado a lado, viradas para as janelas envidraçadas. Levantou os olhos para mim e sorriu, em aprovação. Reconheci que a camisa de tecido fino que vestira, com um decote pronunciado, fora a minha primeira escolha para o jantar, mas recusara-me a vesti-la por sentir que podia dar uma ideia errada do que pretendia que aquela noite fosse.

Ele pediu-me que lhe contasse sobre os últimos anos, em que raramente nos tínhamos correspondido por e-mail e quase tive dificuldade em apreciar o jantar, dado a forma como ele me cativou, quando foi a sua vez de falar. Se nos dias anteriores tínhamos tentado comportar-nos com uma certa frieza profissional um perante o outro, isso parecia estar a mudar mais depressa do que julgara. Depressa deixei de contar os copos de vinho que tinha bebido, tirei o lenço do pescoço e ria com naturalidade.

Era reconfortante estar ali, presa às suas histórias divertidas e ao seu olhar intenso, após uma sexta feira de trabalho. As horas tinham passado sem que desse por isso e ouvi-o sugerir que podia ficar a dormir no quarto de hóspedes, se não quisesse conduzir tão tarde para casa. O meu apartamento ainda ficava longe. Disse-lhe que ia pensar na oferta, que na verdade, parecia bastante aliciante. Ficara encantada com os quartos, quando ele me mostrara o resto da casa. Ambos tinham camas do género daquelas em que tinha oportunidade de dormir apenas quando viajava em nome; infelizmente, não tinha conseguido deixar de reparar num colar de mulher, encrustado de pedras, em cima cómoda. – Se ficar, quero dormir ao pé da lareira – acrescentei, pensando no sofá de aspecto confortável na sala de estar.

Ele sorriu em resposta e olhou-me intensamente, enquanto pegava na minha mão e a segurava entre as suas. Sobressaltei-me com o gesto e lembrei-me de imediato que talvez tivéssemos esgotado os temas de conversa por uma noite, que realmente devia ser muito tarde, que devia ir dormir e que ainda adorava sentir as suas mãos grandes e quentes em redor das minhas…

Dei por mim a fitá-lo com a mesma intensidade, a pensar no quão era triste os anos terem passado por nós. Ele estava um pouco diferente, tinha uma postura mais segura e forte. Os poucos cabelos brancos a contrastar com o cabelo castanho escuro davam-lhe um certo charme e os braços tonificados faziam-se notar através da camisa branca; durante os anos que tínhamos namorado, ele nunca fizera desporto, pelo menos com regularidade, por isso não consegui deixar de sentir uma ponta de inveja por deduzir que alguém, que não eu, o tinha conseguido incentivar a ir ao ginásio. Tinha corrigido os dentes, talvez tivesse usado aparelho durante os últimos anos, e parecia ainda mais sedutor quando sorria; eu sempre tinha gostado do seu sorriso trocista e dos seus lábios grossos.

Enquanto o observava, imaginei-me deitada nos seus braços no sofá a poucos metros, os seus lábios na minha orelha e abanei a cabeça para afastar da memória aquela fotografia que nunca seria tirada; senti os olhos a encherem-se-me de lágrimas e dei por mim a cerrar os lábios para as conter. Um primeiro amor não se esquece, apercebi-me. Parece antes que, por força do amor, se esquecem as discussões, os mal-entendidos, a falta de compreensão, as noites a chorar agarrada aos joelhos pelo simples facto de prever que algo que me tinha feito tão feliz, ia terminar; que os planos por concretizar ao seu lado não iriam passar de folhas em branco no meu diário. Ele inclinou-se para a frente, o rosto a meio palmo do meu. – Tenho que ir embora – disse-lhe.

– Agora? – perguntou-me, com a expressão de felicidade a esmorecer. Segurou de imediato, talvez instintivamente, o meu queixo entre o polegar e o indicador.

– Sim – anuí, com toda a frieza que o meu coração em chamas permitiu. -“Há uma hora de partida mesmo quando não há lugar certo para ir” – sem me aperceber, citava-lhe Tennessee Williams.

Agradeci apressadamente o convite e levantei-me; ele fez o mesmo. Há uma hora de partida mesmo que não exista qualquer lugar que me pareça mais certo para ir do que estar aqui contigo, corrigi-me, mentalmente, enquanto me encaminhava para o hall de entrada.

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