semana 1

Crónicas existenciais 1.01 ou a origem do meu CPR

Esperamos calando os nossos pequenos anseios. Esperamos por segundas oportunidades ou primeiras aventuras. […] Esperamos, assim, daquela que é, para mim, a pior forma de espera: esperar sem nos apercebermos sequer que estamos à espera.

Sento-me finalmente na secretária, agarro na caneta e no papel e as primeiras palavras começam a surgir. Apercebo-me que há muito tempo não escrevia por escrever, porque me apetece, escrever sem sentido algum mas porque é tão-só o que faz sentido para mim.

A verdade é que escrever sempre me ajudou a organizar ideias. Acredito que há poucas coisas na vida mais terapêuticas do que pôr no papel aquilo que nem sempre é susceptível de ser verbalizado. De imediato, regozijo-me ao perceber que este exercício é como andar de bicicleta – nunca se esquece mas o equilíbrio nos primeiros metros é mais hesitante do que outrora… Há que treinar! Respiro fundo e, devaneios à parte, começo o desafio.

Olho para a fotografia que tirei algures no final de Agosto, numa das minhas caminhadas matinais sem destino, numa cidade a descobrir. Lembro-me do cheiro, da luz, das poucas pessoas que àquela hora andavam também por ali, de câmara na mão, a tentar captar pedaços da cidade só para si.

Olho, vejo, e é inevitável. Lembro-me exactamente do momento em que, ao cruzar a Oberbaumbrücke me deparei com esta pergunta… E quero escrever sobre esperas, sobre adiamentos, mas não consigo afastar do pensamento aquilo que senti quando, numa rua entre muitas outras, a própria cidade que vagarosamente quero descobrir me pergunta “Do que estás à espera?”.

Apercebo-me agora que não posso falar sobre as (minhas) esperas, sem falar sobre as (minhas) “correrias”.

De facto, ao olhar para o passeio, o meu pensamento centrou-se, mais do que em esperas e hesitações, numa dúvida imediata: que outras coisas na vida o meu “correr” constante não me terá deixado ver?

E em cada passada, enquanto atravessava Oberbaumbrücke, parti de mim para os outros, para aquilo que me rodeia. E apercebi-me que (quase) todos corremos. Corremos por nós, pelos outros, corremos porque já não sabemos não correr. Corremos tanto, que a vida passa por nós e, às tantas, já nem sabemos porque continuamos a correr. E este correr constante torna-se uma forma de espera, uma forma de nos adiarmos a nós próprios, de nos embrulharmos nas nossas circunstâncias e no conforto inócuo do que já conhecemos.

E esperamos. Esperamos por aquele Grito do Ipiranga da alma que teima em não sair. Esperamos pelo dia em que o sol brilhe de forma diferente, pelo momento em que o telefone vai tocar, pelo dia em que se vão cruzar por um mero acaso, pelo dia em que a economia vai melhorar, etc.. Esperamos calando os nossos pequenos anseios. Esperamos por segundas oportunidades ou primeiras aventuras. Esperamos pelo desatar dos nós das amarras que nós próprios atámos e de que já nem nos lembramos. Esperamos, assim, daquela que é, para mim, a pior forma de espera: esperar sem nos apercebermos sequer que estamos à espera.

Por e simplesmente, esperamos.

E esquecemos. Esquecemos o essencial. Esquecemos que só nós podemos acordar da nossa própria vivência. Mas corremos tanto que nem nos damos hipótese de perceber que queremos acordar.

Até que às vezes, num daqueles raros momentos de inspiração, por entre as encruzilhadas da vida e algures numa cidade qualquer, paramos, respiramos e conseguimos perceber que a resposta (essa!) até pode estar mesmo por debaixo dos nossos pés.

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