Epístola número um

Desde que cheguei que todas as pessoas estão a fazer greve, os estudantes arrancam as pedras da calçada e pintam “Sous les pavés, la plage!” nas paredes. Imaginas?
[…] Eu cá deambulo pelas ruas, imagino Mário de Sá-Carneiro a rir-se num qualquer café na companhia de Santa-Rita Pintor. Ou será que ele nunca se ria?

Meu Querido Amigo,

Apesar de ter tomado todas as diligências possíveis ao meu alcance, escrevo-te estas palavras sem saber se por ventura esta carta te chegará às mãos, seja como for, contigo, eu até em silêncio falo e sei que tu me escutas como te escuto eu a ti.
Já vai para ano e meio que partiste e em Janeiro foi a minha vez de ir dar o nome. O Marco e o Jaime vieram mais cedo, em sarcófago selado, como todos, selados. É melhor assim, mães não devem ver os seus filhos daquela maneira, mesmo que homens, ainda imberbes, destruídos.

Em Janeiro eu lá fui então, sem a tua sorte que eu não gabo, disseram-me que para a Marinha só nos fusos, ainda pensei que do mal o menos, se me juntasse a ti na fragata até podíamos passar a guerra a jogar às cartas. Ainda disse que queria ir para a Faculdade para o ano, soltaram uma boa gargalhada.

Depois daquilo que aconteceu na embaixada, foram-me dadas várias hipóteses, comandos, páras ou Lamego, se insistisse, talvez Tarrafal.

“O mancebo vai querer morrer em Cahora-Bassa ou Cuando-Cubango? A escolha é sua, vive num país livre, escolha à vontade”

Chama-me de egoísta, mas pátria que me obriga a matar para não morrer, não é pátria minha. Pátria que não me deixa ser quem sou, não é pátria minha.

Decidi encontrar mais opções. Certas pessoas disseram-me que me punham são e salvo em Moscovo, que russo até se aprende bem, que as torneiras em casa deitam vodka e que as miúdas, bem, eles não se calam com as miúdas. Mas ir do que temos para o que os Russos têm, quanto tempo seria até me meterem uma arma nas mãos e me obrigassem também a matar? Mais tarde ou mais estava ai apontar-te uma espingarda, mas eu sou desertor, não sou traidor.

Não sabias? Ainda não estou a passear em Copacabana nem tão pouco bebo água de coco com cachaça, estou perto mas tão longe.

Dia 1 de Abril decidi que não valia a pena ficar à espera de um convite, até que não chegou nenhum que valesse a pena considerar. Escolhi a cidade da luz para me guiar como farol, entre primos e cunhados, subornos e corridas sem pressa, cá cheguei, de onde te escrevo um tanto que embriagado.

Sinto que entrei numa realidade paralela, está algo a acontecer, sente-se algo no ar. Pergunto-me se será sempre assim e serei eu apenas um pacóvio que não sabe o que é uma cidade a sério? Não creio. Desde que cheguei que todas as pessoas estão a fazer greve, os estudantes arrancam as pedras da calçada e pintam “Sous les pavés, la plage!” nas paredes. Imaginas? As pessoas reúnem-se em assembleia debatendo horas e horas, não sei bem o quê, nem porquê, nem com que fim. Eu cá deambulo pelas ruas, imagino Mário de Sá-Carneiro a rir-se num qualquer café na companhia de Santa-Rita Pintor. Ou será que ele nunca se ria?

Rio-me eu por ele e com ele e choro por não poderes rir comigo.

Não sei o que será o amanhã, mas pela primeira vez não estou preocupado, sinto que respiro pela primeira vez, sempre acompanhado de uma imensa saudade.

Até breve e que breve seja,

V.S.,
Paris, 19 Maio de 1968

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