semana 2

Entrada de diário

Abro a janela que dá para a varanda, nesta casa que não é minha e olho os candeeiros de rua como se fossem pontos luminosos das minhas vivências perdidas.
[…]
Não terei mais de temer a memória. Que mais se assemelha a estes candeeiros de rua. De noite acessos e quando a manhã começa a brotar, apagam-se.

2 de Maio, 1988

Apanho o expresso da RENEX. O relógio marca as 2.30. Sigo do Porto para Lisboa.

Ainda hoje verei Al Berto para discutirmos o novo livro.
Depois de me guiar para o Fidalgo. Lá jantamos. Champanhe. Um táxi para casa do J.P. onde fico até apanhar um expresso de volta.

Abro a porta já passa da uma da manhã. Ao sentar-me no sofá destinado a albergar o meu sono, penso em como o meu corpo já não sente cansaço. Nem depois da viagem penosa que fiz horas antes.

Tento relembrar o porquê desta vida sem amor. Chamo a memória, mas ela não vem.
Cada vez mais me falha. As memórias de criança feliz desapareceram. As da adolescência turvam como um olho a cegar.

Irei lembrar-me amanhã de onde hoje dormi? De onde estive? Com quem estive?
Não pensei que este Maio seria aquele em que a memória se dissiparia. Sempre quis falar da memória. Deixá-la marcada nos meus filmes. Escrevê-la nas minhas fotografias. E agora foge-me como um bocado de papel levantado pelo vento.

O tempo pesa na memória, pesará no meu corpo, que aquece freneticamente, enquanto a noite arrefece.
Abro a janela que dá para a varanda, nesta casa que não é minha e olho os candeeiros de rua como se fossem pontos luminosos das minhas vivências perdidas.
Quando regressar a casa, irei escrever os pedaços que ainda recordo, como se fossem fios de ouro de família, que não quero perder.
Sempre que voltar a entrar em mais uma das minhas viagens enfadonhas, irei ler o que escrevi e as lembranças, nem que seja por segundos, acabaram por me revisitar. Encher-me-ão o peito de certezas momentâneas, do calor da recordação.

Não terei mais de temer a memória. Que mais se assemelha a estes candeeiros de rua. De noite acessos e quando a manhã começa a brotar, apagam-se.

A perda da memória corrói-me por dentro, trágica doença fatídica.
Escrevo estes diários e esqueço-me de os ler. Escreve-os como se fossem uma muleta que deixo encostada à entrada da porta e que nunca me acompanha.

Rearranjo os livros e a papelada, empilhada na estante. Para me distrair começo a remexer nos papéis soltos e encontro um recorte de jornal que o J.P. guardou, para também ele não esquecer, que o seu Benfica arrecadou mais uma taça em Junho do ano passado.

Tenho de me distrair desta vontade de não esquecer. De recordar, sempre.

Encontro livros escritos por mim. Abro as primeiras páginas e encontro uma caligrafia que já não tenho. Numa dedicatória sentida, que me trás uma avalanche de emoções, fecho o livro com força e queimo o choro.

Fecho a janela e deito-me no sofá. Os olhos a mirarem o tecto desprovido de luz.

Espero que o sono se apodere de mim, do meu corpo e, que amanhã ainda me lembre de quem sou, dos cigarros que fumo e de quem visito.

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