semana 2

1995

O desafio da minha irmã para este novo caderno é tão simples que começo a achar que ela perdeu o dom dos desafios. São quase dez da noite e estou a ouvir o “Bleach” tão baixinho que preciso de me esforçar o dobro para perceber as letras. A minha irmã quer que eu escreva sobre os meus planos para daqui a 20 anos.

25 de Outubro de 1995,

Hoje é o meu aniversário. Finalmente cheguei aos 15 anos! Estava farta de ter 14 anos. Ao jantar, o meu pai até me deixou beber um copo de vinho. Preferia que me tivesse oferecido uma bebida mais doce mas, pelo menos, já houve progressos.

Os meus pais decidiram (finalmente) oferecer-me vinis dos Nirvana. Depois do que chorei em Abril do ano passado e depois de ter arruinado dezenas de cassetes na tentativa de gravar o máximo possível do “Nevermind”, acho que estava na hora. A minha irmã ofereceu-me outro caderno. Este é todo preto, de um material parecido a cabedal mas muito maleável. Sempre que me oferece cadernos, ela dá-me sugestões para escrever as primeiras páginas. Ela nunca lhes chama diários. Para ela, são cadernos para eu fazer o que quiser. Claro que ela sabe que, muitas vezes, eu escrevo cá coisas como se fosse um diário. Mesmo que não o seja.

O desafio da minha irmã para este novo caderno é tão simples que começo a achar que ela perdeu o dom dos desafios. São quase dez da noite e estou a ouvir o “Bleach” tão baixinho que preciso de me esforçar o dobro para perceber as letras. A minha irmã quer que eu escreva sobre os meus planos para daqui a 20 anos.

Quando acabar a escola, o Rui (o Rui é o meu namorado) vai trabalhar com o pai em Coimbra e eu vou tentar ir estudar para lá. Depois casamos, lá para os vinte e três começamos a ter filhos e é isso. O que há de tão difícil em pensar no futuro?

Maninha, estás a perder qualidades…

Ok, agora que penso… acho que não quero isto. É 1995. Eu não tenho de pensar que vou casar com o meu namorado de agora e que a minha vida vai ser assim, simples. E se eu quiser viajar pelo mundo? E se eu quiser ter filhos só aos vinte e seis ou vinte e sete? Que se lixe o plano inicial. Daqui a vinte anos eu quero já ter viajado pelo mundo. Seja com quem for.

Talvez nada disto se venha a concretizar e eu nunca vá além de Benidorm mas um bocadinho de ambição nunca fez mal a ninguém, pois não? Espero que não.

Maria

Anúncios
Standard

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s