A prece

Todos os dias ela sonhava à janela enquanto ele passava. Fato completo, colete e tudo. Todos os dias ela pedia ao Santinho um homem assim. Bonito, educado, responsável, de bem! Com certeza seria um marido amoroso, senão atentemos na lide com a menina. Que outro homem devotava tamanha atenção à sua filha? A sua senhora era uma mulher de sorte. Todos os dias rezava: “Assim, assim meu Santo Antoninho, é que eu queria um pretendente”.

Com 23 anos ela sabia que já tinha passado da idade para casar. Iria, quem sabe, servir para alguma casa em Lisboa ou na melhor das hipóteses, ficar para sempre a ajudar a mãe com o mais novo. Uma coisa ela sabia, não servia para empregadinha de nenhuma cunhada, preferia criar os filhos dos fidalgos que viver por caridade na casa de um irmão submetida às vontades de sua mulher.

“Ainda há esperança”, diziam-lhe as vizinhas, mas os panos na arca do enxoval já não tinham canfora que lhes valesse e há muito que a mãe havia desistido de os deitar ao sol a corar. Como é que ela havia de arranjar pretendente quando a sua vida era a caminho do rio atrás da mãe, enxovais alheios à cabeça para lavar. Se o pouco que saia era à missa ao domingo, serões sentadas no pial da porta a desfolhar o milho com as vizinhas, ou pior, com os irmãos, todos homens, a tiracolo. Por a festa lá calçava sapatos e punha o vestido de chita, mas se via alguém a meter conversa, o mais velho fazia arrepiar caminho. Ou então era o mais novo, metido em alhadas que a fazia arredar pé porque ela estava lá para “olhar por o menino”.

As vizinhas diziam-lhe que feiura não seria porque olhos como azeitonas verdes e cabelo preto entrançado como o dela poucas tinham, mas se tinha recusado corte não devia queixar-se agora do fado de aturar mãe e irmãos marmanjos em vez de bordar fraldinhas como as demais. Mas chamar corte aos avanços do Toino que era como outro irmão para ela só podia ser para rir. Se alguma vez ela seria senhora séria com um estroina a quem mudou os cueiros.

Suspirava enquanto colocava a manta de retalhos no parapeito da janela e nela se apoiava. A mãe cabeceava no cadeirão, o pequeno dormia, os outros sabe Deus. Era o seu momento preferido do dia. O seu momento para sonhar.

***

Elas diziam que um homem não podia cuidar de uma menina. Estavam ali para a levar. Onde já se viu homens a mudar fraldas e a escolher vestidos? Em pouco tempo seria uma maria rapaz de cabelo mal cortado e pés sujos de lama. Até quando poderia ele deixar os assuntos das contas para lhe afagar a cabeça e levar a passear? O lugar dela era com a avó, e as tias, mulheres que sabem cuidar de uma criança e não sozinha com um homem, mesmo que seu pai.

Ele chegou a ser rude. Corrê-las-ia à chumbada se preciso fosse. Pois a menina era sua e da sua casa não sairia nem que viesse o mais pintado. O Padre, o Bispo ou mesmo o Papa. Verdade que perdera a batalha no caso da mãe, sua mulher, essa que um anjo negro lhe veio tomar. Mas não se deixaria vencer no caso da menina.

Em consciência não deixava de lhes dar razão. Sozinho, depois de soprar a ultima vela da casa, pensava se não seria melhor deixa-la ao cuidado de quem sabia, quem sabia melhor do que ele, como vestir, pentear e ensinar as lides de ser uma senhora. E antes de adormecer rezava e pedia à mãe da menina que lhe enviasse um sinal. Que lhe indicasse o melhor caminho a seguir.

Todos os dias depois do almoço e da sesta da menina, mandava que lhe pusessem vestido e touca de sair. Deixava a Coutada em direção à aldeia e passeava-a no largo frente à Igreja. Sempre impecável aquela menina, rendas e bordados como só se deviam ver em Paris, apesar de que quem via nunca lá tivesse estado.

***

Todos os dias ela sonhava à janela enquanto ele passava. Fato completo, colete e tudo. Todos os dias ela pedia ao Santinho um homem assim. Bonito, educado, responsável, de bem! Com certeza seria um marido amoroso, senão atentemos na lide com a menina. Que outro homem devotava tamanha atenção à sua filha? A sua senhora era uma mulher de sorte. Todos os dias rezava: “Assim, assim meu Santo Antoninho, é que eu queria um pretendente”.

Todos os dias ele passava com a filha debaixo da janela da menina Aninhas, coitada, perdera o pai cedo e tivera que ajudar a mãe com a casa e os irmãos. Com certeza sabia tudo sobre criar uma criança, bons homens já tinha criado. Com certeza se dava ao respeito, ou já seria casada. Todos os dias ele caminhava em silêncio enquanto pedia à falecida que lhe indicasse uma luz.

Tantos foram os dias em que passeios e preces e sonhos se misturaram debaixo daquela janela que Santo Antoninho, a falecida ou até a menina, porque a história já ninguém sabe bem como foi, conspiraram para que a Aninhas não tivesse apenas um pretendente assim, mas exatamente aquele, colete e tudo, homem de contas, de letras e de bem. E a sua menina tivesse uma mãe que a fez senhora, numa casa feliz com uma catrefada de irmãos, que afinal vinte e três anos ainda não era tarde demais para casar.

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