semana 2

Desembarque

Pressinto agora que há muito que o coração destes, tal como o meu, reclama o quebrar do jugo tirânico que os oprime, o restabelecer da Ordem e o triunfo da Carta Constitucional. O fim desta guerra brotada de um trono para dois irmãos, mas que nos aparta a todos nós, que me apartou de ti.

Minha querida filha,

Dez dias volvidos da vitoriosa partida de Angra e avistando já a costa deste meu Portugal, escrevo-te novamente em jeito de diário, na esperança que um dia estes escritos possam chegar-te por minhas mãos e que, não o permita os desígnios, não sejam mais do que uma lembrança longínqua de mim.

Ao longe, o avistar da bandeira de Sua Alteza D. Maria II, erguida nesta praia de ondulação forte e águas profundas, abraçada por um verdejante resguardo, traz o ânimo inevitável da proximidade da batalha.

Chamam já para o desembarque. Anseio pisar a terra que me viu nascer e que as minhas crenças me forçaram a deixar. Talvez por me sentir perto de ti, aqui nesta praia, percebo a urgência de te escrever. O recordar dessas tuas mãos tão pequenas que cabem as duas na minha, dos teus olhos sorridentes e curiosos, de um azul tão escuro como estas águas que me rodeiam, aviva-me o espírito. É hora de, uma vez mais, agarrar as armas.

As populações das vilas próximas chegam à praia aos poucos. Vieram saudar o Libertador. A alegria estampada nos seus rostos ao saudar El-Rei D. Pedro IV é contagiante. Será este um augúrio do que se aproxima?

Pressinto agora que há muito que o coração destes, tal como o meu, reclama o quebrar do jugo tirânico que os oprime, o restabelecer da Ordem e o triunfo da Carta Constitucional. O fim desta guerra brotada de um trono para dois irmãos, mas que nos aparta a todos nós, que me apartou de ti.

É o que me alenta a mim e que espero que para ti, meu tesouro, apesar de privada deste teu pai, sejam um motivo de orgulho.

Desceremos amanhã mesmo para o Porto, após os exércitos serem ordenados.

Avizinha-se, pois, minha filha, a hora da Liberdade, desta minha Pátria e, espero, daquela que te verá crescer.

JMS

Mindelo, 8 de Julho de 1832

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