Glória dos Mares – O Amor ao compasso da maresia

O capitão foi ao mar por estes dias, a carne infectou-nos a todos num festim de mal estar e vómito. Mas não havia outra solução, era comer ou padecer. E não obstante tenhamos escolhido viver, atrevo afirmar que a divindade tem planos diferentes e que irá transformar o Glória dos Mares, numa sepultura imponente, uma carcaça fantasma.

Meu doce regaço de amor,

Partimos do cais faz 43 sóis, envoltos na maravilha das descobertas de um novo mundo, nesta sede de fustigar a terra em busca de glória. O mandatário d’El-Rei atesta saber para onde vamos mas o capitão tem outra opinião, a rota tem sido alterada consoante a força de decisão seja firmada. Sem contar com o solo que nos viu partir e com teus olhos a perder de vista, não mais vimos terra nem gentes, nada de embarcações. Apenas o ressonar dos marinheiros e o leve decrépito cantar das gaivotas se entranha em nós. (…) Pudesse ter-te aqui, quando o sol se deita e incendeia os céus dos meus sonhos…

Senhor do meu bem querer,

Sei que partiste faz muito, mais tempo do que alguma vez imaginara aguentar. Todos os dias me prosto na janela grande virada para o porto mas tua nau não retorna, apenas negociantes de outros mares invadem as águas, com seus pós de tempero e brilhantes. (…) De cada vez que um ponto negro e vago se apresenta na linha do horizonte, posso jurar que o meu coração pára e logo chora quando percebo não seres vós. Meu pai diz não haver nobreza nem futuro na vida de quem navega. Não fosse serdes apalavrado pela corte e estaria ele a prometer-me a mão a Augustus. (…)

Santa rendição do meu peito,

Há doença e maldição nesta embarcação, delas padeceram quatro homens que foram a sepultar em alto-mar, o capitão afirma que outros tantos assim irão. Água, água e mais água até perder de vista! Não há terra nem solo que pisar, não há novo mundo para desbravar, riquezas para cobrir os colos e as frontes. (…) Tenho a pele queimada do sol, tão negra que me tomarias por um nativo de outras bandas, o pêlo da minha cara cresce e espalha-se como se fora erva daninha, desisti de lutar contra ele. Teria vergonha de te dar a mão para sequer te apeares, os calos e os cortes contam as linhas da minha sorte. (…) De noite, quando os céus não rompem com os mares e a lua brilha como uma lanterna pelos perdidos que somos, penso em ti. O lenço que me deste já não guarda teu perfume mas tua lembrança vive em mim, é por ela que sobrevivo…

Meu sentimento,

Quase três anos depois e sem novas de ti, sou uma sombra do que já fui. Visto preto pois é luto que sente o meu coração, este luto de não te saber vivo ou morto, de me achar na incerteza do teu regresso. (…) Minha mãe padeceu e meu pai ganhou vontade maior de me casar com Augustus. Ele vem todos os dias pela tarde e fala comigo, enquanto eu bordo com a aia de vigia e murmuro teu nome baixinho. (..) Há mudanças na corte, El-Rei desposou uma nobre de parca confiança e os seus círculos foram afectados, a intriga e a maledicência tem pés e anda, nas bocas das gentes, nos seus segredos sussurrados. Augustus tem sido célere e vitorioso, tornando-se no mais cobiçado esposo de todas as solteiras casadoiras. (…) Se ao menos me fosse enviado um sinal dos céus e te soubesse sobrevivente dessa demanda, se o Senhor intentasse e de seus engenhos te retornasse, como feliz seria eu! O coração que bate sofrido no meu peito é teu, nunca será de mais nenhum…

Poema do meu sentir,

Ouve-las, vê-las?! Estão em todo o lado, as vozes, as luzes. Noites há em que não consigo dormir, sinto os bichos que me percorrem a pele tostada e me entram nela, tenho de as tirar de mim! Coço e coço mas não se me acalma a tormenta, por entre o sangue dos meus ferimentos não há traços desses amaldiçoados. (…) O capitão foi ao mar por estes dias, a carne infectou-nos a todos num festim de mal estar e vómito. Mas não havia outra solução, era comer ou padecer. E não obstante tenhamos escolhido viver, atrevo afirmar que a divindade tem planos diferentes e que irá transformar o Glória dos Mares, numa sepultura imponente, uma carcaça fantasma. (…) Guardo teu lenço como seja parte de mim, como tu és parte de mim. Vou levá-lo comigo quando a hora chegar.

Suspiro dos meus sonhos idos,

A vida encarregou-se de me fazer prisioneira no casamento que meu pai celebrou por três dias. Esperei tanto por ti que perdi os anos de emprenhar e sou seca, nunca vou ter um menino meu a correr-me para o regaço. Augustus não me abandonou, emprenhou uma prima afastada e iremos criar o bastardo como nosso, o nome tem de ser perpetuado e eu não sou nada para ir contra a providência. (…) Será isto o amor? Sempre julguei que o amor nos entrava pela porta de repente e nos enchia os dias de uma luz de primavera em flor. Os meus dias são de um tom cinzento como o céu de uma tempestade. Talvez eu venha a amar o pequeno fidalgo ou pelo menos a bem querê-lo, as crianças não são culpadas dos nossos azares. Sei que morreste, sinto-o no meu peito e parte de mim morreu contigo. Será que nos vamos encontrar na alvorada final dos dias? Deixa-me acreditar que sim…

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