Onde estás, Deus?

Porque o mal está nesta pobre coitada, nota-se logo, põe-lhe a menina dos olhos da cor da íris; tão escura, tão indecifrável. Diz-se até que pega nas coisas com a mão esquerda. Ora, toda a gente sabe que isso é sinal de demónio no corpo – já alguma vez viram o Diabo a fazer as coisas do lado direito?

Aquela menina, no meio das mulheres de pele gasta, que faz ela ali? Ali, entre os anciãos de barbas, os corcundas, os desajeitados. O que os leva a misturar aqueles olhos negros e inocentes com tamanhas aberrações?

As pessoas aproximam-se, enchem a praça como ar dentro de um balão, fazem-na rebentar pelas costuras. Mas que raio de gente é esta? Por que vão eles assistir a tal espectáculo? O que haverá de tão desumano nas pessoas para que o terror lhes brilhe nos olhos?

É que não é só por causa do reflexo do fogo; a fogueira ainda nem está acesa, tenham paciência, só mais uns minutos. Há que cumprir protocolos e rituais, está escrito naquele livro por que todos se regem.

Todos menos ela, coitada, que só queria saber mais. Um livro não lhe bastava, queria conhecer todas as palavras, as inventadas e aquelas que ainda nenhum homem disse.

Depois, queria pegar nelas, guardá-las no bolso da saia, e levá-las aos sete cantos do mundo. Seguir o exemplo, espalhar a palavra de Deus. Porque – a estar nalgum lado – para ela Deus está nos livros.

Agora é só esperar, já se reuniram os desgarrados, os subvertidos, as bruxas, os hereges.

Estão histéricas de ansiedade, as mulheres de Deus, querem que se faça justiça. Não lhes perguntem em relação a quê, que elas não sabem dizer. Só sabem que mais vale pegar a besta pelos cornos, cortar o mal pela raiz, essas coisas que se dizem quando se toma uma decisão.

Porque o mal está nesta pobre coitada, nota-se logo, põe-lhe a menina dos olhos da cor da íris; tão escura, tão indecifrável. Diz-se até que pega nas coisas com a mão esquerda. Ora, toda a gente sabe que isso é sinal de demónio no corpo – já alguma vez viram o Diabo a fazer as coisas do lado direito?

Burburinho, burburinho. Vêm aí, de tocha na mão, já não era sem tempo. Acedem a fogueira e atiçam-lhe as chamas com livros. A menina ainda não foi queimada, mas já lhe conseguiram matar a alma.

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