Viver numa época que não a minha (felizmente!)

Tinha 5 anos quando fui vendida e vim parar a esta casa. Era uma criança inocente, mal eu sabia a vida de sacrifícios que iria ter. Pela janela do meu quarto, se é que se pode chamar quarto e principalmente janela, vejo os filhos dos meus patrões a correrem pelo jardim da casa e a inveja apodera-se de mim.

“Passo a língua pelos lábios e sinto aquele sabor a sangue, o meu estômago dá voltas, doí-me o corpo, sinto-me tonta, com sede, com fome e sem forças.

O sangue escorre-me pela testa e começa a misturar-se com o meu suor…sinto-me um nojo. Sentada no chão, olho para cima e sinto o calor dos raios do sol a entrar pelas grades e, por nanosegundos, aquecem-me a alma. Tento chegar à janela mas não consigo, estou acorrentada. Não sinto o pé esquerdo, não mexe, não dói, não nada. Acho que o parti, acho que o partiram.

Sinto-me a desfalecer, não aguento mais, vou fechar os olhos para sempre e ser feliz e livre noutra vida. Maldita boca, esta minha capacidade para falar tudo o que me vem à cabeça… tenho que aprender a ver e calar, a ouvir e não comentar, a não falar à frente dos patrões.

Mas não, esta minha vontade intrínseca de ver as coisas mudarem, de não aceitar o que todos consideram normal, não o permite. Sou só mais uma, mais um número. Sou a sexta de 9 irmãs, todas mulheres, nascidas com o destino traçado, o deservir.

Tinha 5 anos quando fui vendida e vim parar a esta casa. Era uma criança inocente, mal eu sabia a vida de sacrifícios que iria ter. Pela janela do meu quarto, se é que se pode chamar quarto e principalmente janela, vejo os filhos dos meus patrões a correrem pelo jardim da casa e a inveja apodera-se de mim.

Sim, admito, também queria estar alí, a brincar com crianças da minha idade, mas não, tinha que nascer na época errada e com a cor da pele “errada” e reduzir-me à minha insignificância.

Os anos passaram e a minha inveja foi aumentando. Comecei a questionar o porquê da Ana ter todos aqueles vestidos lindos, com aquele toque sedoso, aqueles chapéus vistosos, os cachos dourados, a pele rosada. Era tão cortejada… Passava a vida a abrir a porta aos seus muitos pretendentes de flores e chocolates na mão, todos com esperança que a Ana lhes desse uma oportunidade… tratavam-na como uma princesa.

As minhas ancas tinham alargado e o meu peito já tinha uma proporção avantajada. Foi rápido sim, de um momento para o outro tinha-me tornado uma mulher e os homens viam-me como um naco de carne.

Tinha 13 anos quando me tiraram a inocência. O meu amo, o pai da Ana. Numa noite de luar, estava eu a contemplar as estrelas, quando ele apareceu. Bêbado e sem qualquer contemplação, aproveitou-se de mim. 9 meses depois nasceu o João (ao menos era homem). Nem o vi, nem o peguei ao colo, foi-me tirado logo à nascença… apenas mais uma “coisa” que me foi tirada.

Prometi a mim própria que não iria morrer sem o procurar… mas dadas as minhas actuais condições, não acredito que cumpra a minha promessa.

Mais uma vez culpabilizo-me, pois se não fosse esta boca grande, não tinha levado tamanho “tratamento”, qual animal de quinta que se recusa a trabalhar… Estaria neste momento a fazer um bolo para o chá das 5 da madame e não numa cela a ver o sol através de barras de ferro. No meu último suspiro penso em como seria a minha vida se tivesse nascido numa outra época. Daqui a uns anos ou mesmo séculos, onde as pessoas pudessem dizer o que lhes vai na alma sem serem caladas através da violência, num mundo onde mulheres como eu possam ter um emprego de que se orgulhem, possam votar e ter uma vida normal sem serem discriminadas.

Espero que o João tenha uma vida melhor que a minha e que a sua eventual descendência, possa viver este meu último desejo.”

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