semana 3

Na Guerra

A tremer, abano-os até acordarem, tapo-lhes a boca com as minhas mãos e imploro-lhes silêncio com os olhos. Estou apavorada e só os quero proteger, encaminho-os para o velho roupeiro que herdei da avó Maria, e o mais silenciosamente que consigo abro as velhas portas e encaminho Rafael e Pilar para o seu interior. O rosto deles, espelho do meu, é fantasmagórico, o medo, o desespero pela sobrevivência no seu estado mais puro.

Hoje não consigo adormecer, é como se algo em mim pressentisse que alguma coisa de muito má vai acontecer, e não, não é do barulho das botas dos militares lá fora na rua, não é do vento frio que entra pelas janelas que outrora tiveram vidros, não é pela ausência do José, por não ter notícias dele há mais de 2 meses.

Foi numa noite como esta, cheia de maus pressentimento, com vento gelado a uivar no breu da cidade, que os militares do regime o vieram buscar para lutar contra os seus amigos. Sim, o José é da resistência e hoje luta não ao lado mas contra os seus companheiros, os seus ideais. Odeio esta guerra, odeio estar aqui sem saber de ti, odeio estar sozinha com os nossos filhos neste que já foi o nosso lar, hoje são só paredes com buracos, janelas sem vidros. Não temos electricidade, não temos água nas torneiras, não tenho comida para o estômago dos nossos filhos, pobres crianças, outrora felizes e limpos, hoje Pilar e Rafael são dois seres magricelas, famintos, sujos, mas são os nossos filhos, fruto do nosso amor, filhos tão desejados e queridos.

– Mamã, mamã!! – Ouve-se num grito choroso. É Rafael, o meu doce menino.

– Estou aqui amor, digo-lhe quando o alcanço no quarto escuro. Aconchego-o, a noite está fria, o Janeiro mais frio dos últimos anos.

– Mamã, sonhei com o papá! Ele estava deitado na neve a gritar e depois ficou tudo vermelho – Relata Rafael entre lágrimas.

-Oh filho, digo-lhe para o tranquilizar, foi só um sonho mau, de certeza que o papá está bem.

– Mas está tanto frio mamã! O papá tem frio, está gelado, eu sei…

Pilar levanta-se da cama e acocora-se ao nosso lado, dá-nos a mão e diz:

– Rafa não tenhas medo, o papá sabe que o amamos muito e além disso estamos aqui, na nossa casa, os três juntos, nada nos pode acontecer.

Na rua ouve-se uma criança a chamar pela mãe entre soluços. A mãe responde, grita! Um tiro é disparado, silêncio de morte, um grito surdo, sons das botas a esborrachar a neve. Eu estremeço, aperto-os contra mim com mais força. Quero abandonar esta sensação de medo que se apoderou de mim. Maldita guerra.

Afasto os maus pensamento e convido-os a juntarem-se a mim na cama grande, a protecção e aconchego possível. Gostava de poder aquecer 2 copos de leite e oferecer-lhes biscoitos de canela, para lhes acalmar o estômago e a alma. Não tenho leite e os biscoitos acabaram há muito. Amanhã temos de ir, mal o sol nasça, para a fila de racionamento para ver se conseguimos trazer para casa um pouco de pão, de leite, de arroz e com muita sorte um pedaço de carne seca.

Na cama grande, com um em cada braço, bem encostados em mim, sinto-os adormecer, ouço-lhes o respirar tranquilo, sinto o calor dos seus corpos, fecho os olhos por uns segundos e quase parece que está tudo bem, como antes desta guerra estúpida, como quando ainda estávamos os quatro juntos, quando a nossa casa estava iluminada, quente e cheirava a assados feitos no forno.

Saio deste meu torpor sobressaltada pelo barulho de botas dos militares nas escadas de madeira do nosso prédio, hoje os únicos habitantes do n.º 9 são mulheres, crianças e velhos, os homens foram todos recrutados para o exército do regime ou então lutam do outro lado, o da resistência. Barulho de portas arrombadas, gritos de pânico são abafados, choros desesperados de crianças, filhos arrancados com brutalidade dos braços das mães, ouve-se o terror… Terror causado por esses animais, pois não podem ser homens, só animais entram de noite em casa de mulheres, crianças e velhos indefesos para os brutalizar, para os subjugar, para os ensanguentar.

Os degraus continuam a ser escalados por aquelas botas e não tarda estão no nosso piso e a próxima porta a ser arrombada é a nossa.

A tremer, abano-os até acordarem, tapo-lhes a boca com as minhas mãos e imploro-lhes silêncio com os olhos. Estou apavorada e só os quero proteger, encaminho-os para o velho roupeiro que herdei da avó Maria, e o mais silenciosamente que consigo abro as velhas portas e encaminho Rafael e Pilar para o seu interior. O rosto deles, espelho do meu, é fantasmagórico, o medo, o desespero pela sobrevivência no seu estado mais puro.

O barulho nas escadas é agora ensurdecedor.

Mãos rodam a maçaneta da nossa porta.

-Rafa não chores – implora Pilar em surdina.

– Chiu – Sopro-lhes eu e digo: Aconteça o que acontecer não se separem, não façam barulho, não falem, não se mexam, só saiam do roupeiro quando o sol raiar e quando não houver qualquer barulho no prédio.

– Mamããã! – Soluça Rafael.

Pilar agarra-o com força.

Beijo-lhes os rostos, sugo-lhes o cheiro, aperto-lhes as mãos e murmuro: Meus filhos eu amar-vos-ei sempre, para sempre, vocês estão sempre no meu coração e eu no vosso, nada nos pode separar!

– Nós também te amamos mamã – diz Pilar entre lágrimas, apertando ainda mais Rafael.

– Saiam todos!!! Grita um voz gutural!

Largo-lhe as mãos, olho-os nos olhos, envio-lhe todo o meu amor, tapo-os com os velhos cobertores, fecho a porta do roupeiro. As lágrimas caem-me pelas faces, o coração dói, peço ajuda a Deus – Senhor, proteja a Pilar e o Rafael – Chicotadas de dor assolam-me o corpo e a alma.

– Vá, toca a sair, não vão conseguir escapar gentinha de merda! – Ouve-se entre risadas!

Devem ser uns quatro, estão bêbados, o cheiro a vinho inunda a casa, vejo-lhes as botas, sinto a sua sinistra presença e penso, pelos meus filhos eu aguento tudo e digo:

– Estou aqui, o meu nome é Mercedes!

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