Love me tender

Continua a fitá-la intensamente. Aos gritos sucedem-se agora gemidos quase inaudíveis. Mais quatro, cinco, seis vezes, e uma mistura de sangue e vísceras escorre pelo chão.

Ao longe, no rádio, tocava All I Have to Do is Dream na versão original dos The Everly Brothers, enquanto John lentamente terminava de afiar Stevie.

Para John, Stevie era muito mais do que uma simples faca de trinchar. Era antes como um velho amigo de toda vida, com o cabo enegrecido pelo uso. Enquanto afiava Stevie, John esboçava um ligeiro sorriso. Era impossível não fazê-lo ao recordar saudosamente as aventuras que já haviam partilhado…

John saboreava, assim, cada momento. Afinal, o último suspiro era apenas o clímax de todo um processo. Nada fora deixado ao acaso. A começar pela cave onde estava, uma compra às retomas do Banco – verdadeira pechincha!

A grossura das paredes que cuidadosamente mandara isolar e a música dos The Everly Brothers abafava o som do afiar da faca e, principalmente, qualquer grito de visitas como a que tinha agora.

Ah, esta bela pequena! Tinha andado a vigiá-la durante semanas. Ao olhar para ela ali deitada não conseguia esquecer o momento em que se cruzaram pela primeira vez,  em que sentiu o seu perfume. Foi ali mesmo ao lado de casa, no supermercado do bairro. Como predador treinado, soube de imediato que a sua busca cessara.

Curioso o destino – pensou!  Já tinham passado tantos anos desde a última vez que se sentira assim – a adrenalina, o batimento cardíaco acelerado próprio das paixões à primeira vista. O desejo foi imediato, assim como a urgência de tê-la para si.

Pegou num pacote de leite e, vendo-a a ir para a caixa, dirigiu-se também para a mesma quase em passo de corrida, apenas para momentos depois a deixar passar a frente. Queria ouvir a voz dela, isso era essencial.

Pagou e seguiu-a. Vivia perto, perfeito! Continuou a segui-la durante as semanas seguintes até ter tudo preparado. Mais do que o tempo necessário para finalizar o plano, este era para John um processo de enamoramento, de consolidação dos sentimentos que já antes nutria. E à medida que desvendava as rotinas daquela pequena, sentia-se cada vez mais próximo dela, da sua personalidade, dos seus gostos e desgostos.

E ali estava ela, inteiramente sua e tão bela como na primeira vez que a vira. As cordas que a atavam e o sangue que lhe escorria dos lábios (devia ter sido mais gentil com a mordaça, pensou) só a tornavam mais irresistível. O momento chegara e John não conseguia deixar de sentir já uma certa nostalgia… Estava pronto.

No rádio soava agora a voz de Elvis Presley – Love me tender, love me true…, – música da sua juventude. Poderia ser mais perfeito?

Embalado pela música, John aproxima a faca do peito dela, já antecipando o cheiro metálico do sangue quente, o odor inesquecível a medo e submissão.

Um arrepio percorre-lhe a espinha. Sente no gume já treinado de Stevie a pele pálida. Olha-a nos olhos. Queria que o seu olhar fosse a última coisa que ela levasse deste mundo. Só assim podiam ficar juntos para sempre.

Love me tender, love me true, All my dreams fulfill…

Começa a rasgar a carne. Primeiro lentamente, para sentir o perfurar do músculo até chegar às entranhas profundas.

A voz de Elvis mistura-se agora com os gritos dela… Love me tender, love me long, Take me to your heart. For it’s there that I belong, And we’ll never part.

Enterra a faca na carne mais uma, duas, três vezes, agora com violência apaixonada. Ao mesmo tempo, acompanha Elvis no refrão Love me tender, love me dear, Tell me you are mine… Que música deliciosa, pensa John, nunca passa de moda!

Continua a fitá-la intensamente. Aos gritos sucedem-se agora gemidos quase inaudíveis. Mais quatro, cinco, seis vezes, e uma mistura de sangue e vísceras escorre pelo chão.

Uma última vez e John respira fundo, enleado pela satisfação que lhe corre pelas veias. O olhar dela está vazio. O mar de sangue à sua volta fá-lo sentir em casa.

E ao longe, já nada mais se ouve a não ser o velho Elvis:

Love me tender, love me true, All my dreams fulfill.
For my darlin’ I love you, And I always will.

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