semana 3

O rapaz da bicicleta

Deixei passar os minutos, deixei passar as horas, deixei passar os dias e deixei passar uma semana até hoje.

Não estava com a cabeça virada para a escrita, estava sem inspiração, sem vontade, a passar por uma espécie de depressão pessoal até hoje, dia que resolvi falar sobre o horror, sobre o medo.

Queria contar-vos uma história gira, algo inventado por mim, digno de um guião do Hitchcock ou do Stephen King mas, a minha vida profissional mais uma vez atraiçoou-me. Entre horas e mais horas de trabalho e tentar ter uma vida social mais ou menos normal, pouco ou quase tempo nenhum me resta para encontrar inspiração e escrever. E porque esta coisa de ter um blogue acaba por ser uma extensão de nós, venho falar-vos aqui um bocadinho do meu terror, do meu medo, aquilo que eu própria vivi durante a minha adolescência.

Tinha eu 13 anos e lembro-me de cada momento desta minha experiência como se tivesse acontecido há 5 minutos atrás. Estava no penúltimo ano da catequese e todos os sábados de manhã lá eu tinha que acordar cedo e fazer a minha caminhada de 15 minutos até à igreja da cidade.

Era um dia de sol de inverno, um pouco como os que temos tido nestes dias em Lisboa. Cheguei um bocadinho mais cedo à igreja e fiquei à conversa nas escadas da igreja, senti que estava a ser observada e olhei para trás. Vi numa esquina um rapaz sentado numa bicicleta a olhar na minha direcção. Não liguei…devia ter ligado.

Os dias passaram e eu continuei a minha vida despreocupadamente como qualquer adolescente da minha idade deve fazer.

Lembro-me muito bem quando revi o rapaz outra vez, era outro sábado, mas desta vez estava no mercado com a minha mãe, mais uma vez virei e vi-o sempre sentado na bicicleta e a olhar para a minha direcção, pensei: “Que coincidência!”, mas desta vez essa coincidência alarmou-me.

Dias depois apanhei o autocarro na paragem perto da minha casa, sentei-me lá atrás nos bancos do fundo porque naquele tempo era lá que se sentavam os adolescentes in. Os bancos lá de trás eram como um trono de poder, não sei se continuam a ser, tenho que me informar 😉

Estava eu sentada lá atrás, olhei pela janela para as ruas que começavam a ficar iluminadas com as decorações e luzes natalícias e vi-o, o rapaz da bicicleta, a seguir o autocarro…o meu autocarro. Medo, foi o que senti, comecei a perceber que não eram coincidências, não eram acasos do destino, aquele rapaz estava ali, esteve onde eu estive…andava a ser seguida.

Saí do autocarro e fui a correr para a escola, sem olhar para trás, a suster o fôlego, corri com todas as forças e rezei a todos os Santos possíveis e imaginários. Cheguei à escola, cheguei bem, olhei para trás e lá ele estava parado atrás dos carros estacionados a olhar directamente para mim e aí percebi, percebi que os meus dias nunca mais iriam ser o mesmo.

E foi assim que vivi 3 anos da minha vida, atormentada, com medo de sair de casa, com medo de não voltar a casa, com medo de contar aos meus pais, com medo de contar a qualquer pessoa, com medo de ser mal interpretada, com medo de ser castigada, 3 anos de medo, de terror, de horror.

Nesses 3 anos o rapaz da bicicleta passou a homem da mota, de pré-adolescente passei a pré-mulher, do básico passei ao secundário, passei de ir sozinha para casa a ir SEMPRE acompanhada pela minha vizinha (um pouco mais velha do que eu), ou pela mãe dela.

Depois o meu medo foi diminuindo, de um momento para outro comecei a reparar que já não era seguida, não tinha ninguém à espera à porta da escola ou na esquina do parque perto da minha casa…desapareceu!

Nunca mais o vi, não sei se está vivo, se está morto, se foi preso, se mudou de cidade, país, continente, não sei nada de nada. Também não gosto de pensar nisso, talvez tenha criado juízo e tenha parado… é o que prefiro pensar.

A verdade é que, hoje, apesar de não ter nenhum rapaz de bicicleta, mota, ou whatever, atrás de mim. ando sempre desconfiada porque uma pessoa perseguida nunca, mas nunca consegue descansar…a sério!!!

perseguiçao.jpg

Love

C.

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