Porta fora

Sentada na poltrona, pálida e de veias salientes, com os olhos esbugalhados como sempre, ela estava encharcada da cabeça aos pés. O vestido, agora de um branco imundo, colava-se-lhe ao corpo e deixava adivinhar sangue e nódoas negras.

O elevador estremecia sempre no quinto andar. Nesse momento, ele – que morava no décimo terceiro – olhava-se no espelho e soltava um sorriso malicioso. Se o elevador parasse ou fosse por ali abaixo à velocidade da luz, pelo menos tinha-se observado uma última vez antes de ir desta para melhor.

Mas naquele dia, embora o elevador se tenha agitado como habitual, ele não sorriu. Olhou-se, mas não sorriu. Estava farto. Sempre que discutiam, ela tornava-se agressiva, guinchava, os olhos abriam-se-lhe muito, ficavam vermelhos, e ela saía porta fora.

Podia demorar dias a regressar. Das primeiras vezes ainda corria disparado, na tentativa de a encontrar. Chegou a dar com ela de madrugada, sentada na berma da estrada, de olhos bem abertos e cabeça encostada à barriga da perna de uma prostituta.

Noutras ocasiões, voltava a casa imaculada e pelo seu próprio pé, como se a discussão se tivesse passado somente dentro da cabeça dele.

Na noite anterior tinha acontecido tudo de novo. Ela entrara em histeria, sabe-se lá bem porquê. O motivo era o que menos interessava. Copos e pratos pelo ar, gritos ensurdecedores, palavrões.

Finalmente no décimo terceiro andar, saiu do elevador e viu a porta de casa entreaberta. Tinha-a deixado bem trancada, quatro voltas à chave pelo menos, por isso era óbvio que ela tinha regressado.

Só a pequena luz de leitura da sala estava acesa, o resto da casa já dormia na penumbra. O jogo de sombras disfarçava-lhe as marcas na cara. Ele levou a mão ao interruptor, ligou o candeeiro do tecto e sentiu o sangue a fugir-lhe pelas pernas abaixo.

Sentada na poltrona, pálida e de veias salientes, com os olhos esbugalhados como sempre, ela estava encharcada da cabeça aos pés. O vestido, agora de um branco imundo, colava-se-lhe ao corpo e deixava adivinhar sangue e nódoas negras.

Olha aqui tão bonito, disse-lhe, enquanto levantava o vestido e apontava para o ventre mutilado. É vermelho e ainda está quente. Sorriu-lhe.

Ele procurou o telemóvel nos bolsos das calças, mas foi à porta, dentro do casaco pendurado no cabide, que o encontrou. Tinha de chamar ajuda. Quando pegou no telemóvel, viu uma mensagem no visor.

Tenho tentado ligar-te todo o dia. A Alice teve um acidente de carro junto ao rio. Os médicos fizeram o que podiam. Lamento. Liga-me quando puderes.

Atordoado, voltou à sala, mas já pressentia que não iria encontrá-la. Só a poltrona, cândida e iluminada pela luz de leitura.

Alice?

Chamou por ela e, sem resposta, correu para o elevador. Tinha de a encontrar. Passou o quinto andar e, com o abanão, qualquer coisa dentro de si forçou o olhar em direcção ao espelho.

O sorriso reflectido era malicioso, sim, mas não era dele.

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