semana 3

Yukio no noroi (幸雄の呪い – A Maldição de Yukio)

Lia-se no dia seguinte, na mesma parede, também escrito a vermelho como a primeira mensagem, a qual desaparecera completamente da parede para dar lugar à nova resposta. Com ele era assim, uma revelação de cada vez.

Misa aceitou que a comunicação entre eles seria invulgarmente lenta.

Quando alguém morre uma morte violenta, tão lenta que dá tempo de pensar, a dor rapidamente se transforma num ódio tão profundo que perdurará até à eternidade no local onde ocorreu o crime.

Toda a gente sabia disto em Shirakawa.

Apesar dos seus tenros nove anos, Misa ia todos os dias para a escola a pé, sozinha. Tinham-se já passado alguns meses desde que descobrira um atalho para a escola através de um túnel numa velha estrada da cidade. Desde então, novas estradas tinham sido criadas, mais modernas e com um pavimento mais liso, pelo que o túnel e a estrada em que o haviam construído tinham gradualmente deixados de ser utilizados pelos habitantes locais.

Agora, só jovens do liceu mais próximo iam para lá fumar e tomar outras coisas que Misa era ainda demasiado inocente para identificar.

Às horas que ia para a escola estava o dia ainda a despertar e não se encontrava ninguém no túnel, ninguém que a ameaçasse ou tentasse roubar o almoço que trazia todos os dias de casa.

Mas não estava vazio, soubera-o desde que o atravessara pela primeira vez.

Não sentiu medo, apesar de não ter qualquer dúvida de que estava a ser observada.  Estranhamente, sentiu-se triste e as lágrimas marejaram-lhe os olhos. Não sabia porquê.

Era como se aquele lugar lhe despertasse sentimentos que não eram dela.

Passado algum tempo, a impressão inicial de que ouvia alguém a chorar baixinho tornou-se parte da sua rotina diária.

Um dia decidiu perguntar ao vazio do túnel:

– Está aí alguém?

Sem surpresa, não obteve resposta.

No dia seguinte, durante a caminhada matinal rumo à escola, viu algo novo na parede. Era algo escrito. Misa tocou na tinta. Estava fresca e manchou-lhe a mão de vermelho.

私はここにいます

(“Estou aqui”)

Soube imediatamente que era a criança que ouvira chorar. Era a confirmação de que precisava para ter a certeza que não estava a imaginar coisas, como a mãe insistentemente a tentara convencer quando um dia, de regresso a casa, lhe contara que sentia e ouvi coisas estranhas no túnel.

“Se me deu este sinal”, pensou Misa, “é porque quer falar comigo. Eu sei que posso ajudar”.

Seria verdade? As dúvidas apareceram tão rápido quanto a certeza inicial de que a outra criança poderia querer a sua ajuda. Então, decidiu fazer-lhe outra pergunta. Se amanhã tivesse a resposta pintada na parede, assumiria como certa a suspeita inicial.

– Como é que te chamas?

幸雄

(“Yukio”)

Lia-se no dia seguinte, na mesma parede, também escrito a vermelho como a primeira mensagem, a qual desaparecera completamente da parede para dar lugar à nova resposta. Com ele era assim, uma revelação de cada vez.

Misa aceitou que a comunicação entre eles seria invulgarmente lenta.

Mas era sexta-feira e durante o fim de semana inteiro não teria razão nenhuma para atravessar aquele túnel. Como é que aguentaria dois dias inteirinhos sem morrer de curiosidade, sem desvendar este mistério? As respostas de Yukio já eram suficientemente lentas sem que o fim de semana se atravessasse entre eles.

E assim se passou sábado e domingo, dolorosamente lentos, aborrecidos sem nada que a tirasse do transe em que se encontrava. Domingo à noite informou a mãe que se iria retirar para os seus aposentos de uma forma invulgarmente dramática nela, algo que a mãe e as duas irmãs mais velhas estranharam. Misa só queria que as horas passassem mais depressa e que fosse logo segunda feira.

Quando o dia chegou, saiu da cama num pulo, lavou-se e vestiu-se, tudo antes da hora a que a mãe a acordava várias vezes para se preparar para o início de mais uma semana.

Aguardou impacientemente pelo pequeno-almoço, que engoliu quase de uma só vez, e saiu apressadamente de casa.

Era o momento pelo qual aguardava há dias.

Ao aproximar-se do túnel, abrandou o passo. E se ele já não quisesse falar com ela? E se se tivesse ido embora e nunca mais voltasse?

Tinha que acabar com as dúvidas, mais tarde, ou mais cedo.

Mal deu os primeiros passos viu, ainda que indistinta, uma silhueta na extremidade oposta do túnel.

Era uma figura pequena, talvez até mais baixa do que a dela, que vestia uns calções, não; umas calças demasiado curtas que deixavam adivinhar uma magreza arrepiante a julgar pela parte das pernas a descoberto.

– Yukio?

Correu até chegar ao meio do túnel, entre a entrada e a saída.

O rapazinho magro fez que sim com a cabeça.

À medida que Misa se aproximava, crescia a sua preocupação. O rapaz era tão magro que parecia ter sido engolido inteiro pela roupa que vestia. O seu rosto e mãos eram anormalmente pálidos, como se não saísse daquele túnel há anos. Mas antes que lhe conseguisse perguntar se queria ajuda e onde andavam os seus pais, Yukio olhou-a com uns olhos enormes, meio amarelados e perguntou-lhe sem sorrir:

– Brincas comigo?

A menina aceitou. Sabia que tinha que ir para a escola, mas a pena que sentiu por aquele rapazinho triunfou sobre o sentido de dever. E assim se deixou ficar com Yukio sem dar pelas horas passar enquanto criavam formas de animais e monstros horripilantes imaginários feitos de sombras projectadas nas paredes do túnel.

Quando tentou que lhe dissesse algo mais que o seu nome, Yukio emudeceu. Olhou-a silencioso com aqueles grandes olhos e abraçou-a.

– Prometes que não me deixas?

Mal o sol começou a mostrar os primeiros sinais de abandono, Misa foi para casa, mal sabendo que a sua mãe já tinha sido informada da sua falta falta de comparência na escola.

Megumi não tinha andado desatenta nas últimas semanas e repreendeu seriamente a filha. Misa nunca tinha feito nada assim, a culpa só podia ser da criança que a filha insistia que vivia no túnel que atravessava para a escola. A solução era simples: Misa estava doravante proibida de passar pelo atalho e de conviver com quem quer que lá estivesse.

A menina chorou toda a noite, mas na manhã seguinte, enxugou as últimas lágrimas e prometeu à mãe que iria obedecer. Só tinha um último pedido a fazer: queria despedir-se de Yukio.

Numa última e dolorosa caminhada até ao túnel que foi também a mais lenta de todas agora que já não era permitida ter alguma ligação àquele local, pensou em várias formas de lhe dizer o que tinha que dizer.

De alguma maneira, ele já sabia.

– Mas tu prometeste…

A raiva e a desilusão eram evidentes nos olhos dele e não havia nada que ela pudesse fazer para ele não se sentisse assim.

– Desculpa, a minha mãe proibiu-me…

– Eu sei que a culpa não é tua. Eu perdoo a tua mãe também. Escrevi uma coisa para ela e para as tuas irmãs. Não quero que leias antes delas. Dá-lhes a carta e diz à tua mãe para a ler em voz alta. Não quero que ouças, mas podes lê-la depois, para dentro. Sempre para dentro. Consegues manter esta promessa?

Misa ficou admirada por ouvir tantas palavras seguidas por parte de Yukio, mas superado o choque inicial disse-lhe que sim, que prometia e que lamentava terem que deixar de se ver.

Desta vez foi ela que avançou para o abraçar, mas o rapaz deu um passo atrás e ficou a olhá-la com os maiores olhos do mundo a ir embora para sempre..

No dia seguinte, Misa acordou sobressaltada. O aperto no coração era forte demais para ignorar. Levantou-se de um pulo, não com a ânsia de atravessar o túnel, mas porque sentiu que algo estava muito errado.

Desceu o lance de escadas que separavam os quartos da zona social da casa para encontrar os corpos da mãe e das irmãs desprovidos de quaisquer vestígios de vida. A irmã velha, Reiko, encontrava-se de barriga para cima, no sofá, os olhos baços a fitarem o tecto. A irmã do meio, Ryoko, caíra em frente, por cima do tapete felpudo no qual, juntas, tantos filmes viram e tantos risos haviam trocado no passado.

Megumi estava ligeiramente afastada das filhas, em frente à mesa de jantar. Um fio de sangue escapava do interior da sua boca, manchando a carpete beje por baixo. A sua mão gelada segurava um papel.

A carta de Yukio

A velha irmã vomita sangue, a jovem irmã cospe fogo.
Doce Misa cospe jóias preciosas.
Misa morreu sozinha e caiu no inferno.
Inferno, escuridão, sem flores.
É a irmã mais velha de Misa que a açoita?
O número de vergões vermelhos é preocupante.
Açoitando e batendo e espancando,
O caminho para o inferno eterno é a única via.
Implora por orientação na escuridão do inferno.
Da ovelha dourada, ao rouxinol.
Quanto falta na bolsa de couro,
Prepara-te para a jornada infindável no inferno.
A Primavera vem e nos bosques e vales,
Sete voltas no vale sombrio do inferno.
Há um rouxinol na gaiola, no carrinho uma ovelha,
Nos olhos da doce Misa há lagrimas.
Chora, rouxinol, para os bosques e a chuva
Expressando o amor pela sua irmã.
O eco do seu choro uiva pelo inferno,
E uma flor vermelho-sangue desabrocha.
Pelas sete montanhas e vales do inferno,
Doce Yukio viaja sozinho.
Para receber-te no inferno,
As estacas brilhantes da montanha espinhada
Fresco espeto perfura na carne,
Como um sinal para a doce Misa.

Nota: o poema final é uma tradução livre (não minha) do poema Tomino’s Hell escrito por Yoomta Inuhiko. De acordo com a lenda urbana japonesa, quem ler este poema (o original) em voz alta morrerá em pouco tempo. Se tiver sorte, apenas terá uma vida dolorosa e miserável. Podem ler a lenda urbana aqui.
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