semana 3

Acorda

Senti-lhe as mãos ásperas a passarem-me pelos braços e a rasgarem-me a camisa. “Oh meus Deus, fá-lo parar, por favor fá-lo parar!” Comecei a tremer como se o meu corpo tivesse sido atravessado por uma corrente eléctrica, uma convulsão atrás da outra. Ele fez mais pressão sobre mim, mais inclinado sobre mim, o bafo quente e ébrio sobre a minha cara, a mandar-me parar senão…

Abri os olhos com dificuldade. Não reconheci o local onde estava, era sujo e bafiento, com uma janela quase no tecto, pequena, andrajosa e com grades. Tentei levar as mãos à cara mas não consegui, tinha-as presas atrás das costas e aquilo que pensei ser uma posição esquisita para adormecer, percebi ser uma posição de um animal em cativeiro. Tentei gritar mas a minha voz saiu em farrapos e a minha garganta parecia estar cheia de pó. Tossi e tossi mas tinha a garganta tão arranhada que de nada me serviu. Abri mais os olhos mas havia algo que me impedia de o fazer normalmente. E aí vieram as dores. De repente, todo o meu corpo percebeu que eu estava acordada e o podia sentir e tudo me doía, o rosto, as mãos, as pernas, as costas, era como se tivesse sido atropelada uma e outra vez.

Um som de chaves ali mais em cima e logo de seguida, passos firmes e decisivos desciam as escadas até mim. A luz era fraca e tudo o que me permitia ver era um vulto, quase como se não fosse humano, apenas uma sombra que se movia ao meu redor, observando-me, cheirando-me o medo enquanto eu me encolhia como podia. E logo a sombra falou.

– Quem te mandou?

Pensei ter alucinado mas ele repetiu, com a voz mais grave e mais alta:

– Quem te mandou?!

Eu não sabia responder, como poderia? Estava ali amarrada, muda, dorida e quase de certeza com costelas partidas, sem saber onde era esse ali onde estava e quem era ele, como poderia responder?! Comecei a chorar mas a garganta fechou e tossi convulsivamente. Ele deu dois passos em frente e pegou-me pelos braços, conseguindo-me elevar tal era a força bruta. Abanou-me violentamente enquanto rugia:

– Cala-te, ninguém te ouve, ninguém quer saber! Cala-te!

Atirou-me de encontro ao colchão fino e malcheiroso onde acordei e sentou-se em cima de mim. Ainda me tentei esquivar de alguma forma, patética e desajeitadamente, mas ele era demasiado forte, demasiado vil. Riu, troçando do meu esforço vão e agarrou-me pelo queixo.

– Vou-te ensinar a não te meteres onde não és chamada!

Senti-lhe as mãos ásperas a passarem-me pelos braços e a rasgarem-me a camisa. “Oh meus Deus, fá-lo parar, por favor fá-lo parar!” Comecei a tremer como se o meu corpo tivesse sido atravessado por uma corrente eléctrica, uma convulsão atrás da outra. Ele fez mais pressão sobre mim, mais inclinado sobre mim, o bafo quente e ébrio sobre a minha cara, a mandar-me parar senão…

Um som electrónico surgiu do nada, um telemóvel tocava, indiferente ao cenário de horror que o circundava. Ele levantou-se e subiu as escadas quase a correr, deixando-me sozinha, a tremer de frio e de medo.

Acordei de novo mas tudo continuava igual, o choque deve-me ter feito desmaiar. Ao mexer-me percebi que tinha as amarras das mãos mais largas e com esforço e dor lancinante, consegui soltá-las. A seguir soltei os pés mas estavam tão bem presos que demorei uma eternidade, pareceu-me uma eternidade. Finalmente passei os dedos pelo rosto e percebi que a razão de não conseguir abrir mais os olhos era porque o tinha inchado, provavelmente roxo, marcado pela pancada. Há quanto tempo estaria ali e como lá tinha chegado? Não me lembrava de nada.

Mal me conseguia por em pé, quase me arrastei até às escadas. Apoiada no corrimão de madeira icei-me e subi-as, degrau a degrau, o corpo vociferando a cada movimento, sentia os músculos esticarem, estalarem, darem de si. No exacto momento em que cheguei lá acima a porta abriu-se e o vulto inundou-me com a sua escuridão. Caí para trás.

Acordei suada na minha cama, como se ela fosse o fosso para onde eu tinha caído de costas. Mexi-me tresloucadamente, não fossem os lençóis serem braços a agarrar-me. Levei quase meia hora para deixar de arfar e tremer, o meu coração parecia ir saltar-me do peito. Passei as mãos pelo rosto, tudo normal, os braços também, toda eu estava normal depois de um pesadelo como nunca tive. Esfreguei os olhos, estúpida a assustar-me com um sonho, comecei a rir-me de mim mesma.

E foi então que ouvi o vidro partir-se…

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