semana 3

Nas sombras da cidade

Agarro na mala e apresso o passo. Juro que ouço passos atrás de mim mas, sempre que olho, não vejo nem um cão. Mas está alguém atrás de mim. Eu sei. Eu sinto-o. Agora caminho a um passo quase de corrida. Só não corro porque o meu joelho não permite. Ouço os passos atrás de mim. Estão cada vez mais apressados, tal como os meus. Estou quase a correr. Tenho medo.

Há algo nas ruas desta cidade que me faz agarrar a minha mala como se nela guardasse o maior tesouro da vida humana. Olho várias vezes para trás, recuso-me a usar fones e até frequento aulas de defesa pessoal. Nunca me aconteceu nada… mas isso não quer dizer que, um dia, não aconteça.

As ruas não são assim tão mal iluminadas. O problema não é a iluminação das ruas. O problema é… nem eu sei. Eu não acreditava nestas coisas… até há uns dois meses. O jornal onde a minha melhor amiga trabalha começou a publicar peças sobre mortes na cidade. Todas elas em condições estranhas, durante a noite. De resto, não há pontos convergentes entre as mortes: tanto são homens como mulheres; as idades variam entre os 15 e os 60 e tal; solteiros, casados, divorciados… Enfim, não há nada que ligue estas mortes… excepto o facto de não haver suspeitos nem pistas encontradas.

Durante as primeiras notícias, confesso que pensei que era exagero da parte do jornal. Uma forma de vender mais ou algo do género. Depois a minha melhor amiga ligou-me, assustada. Dizia-me que aquelas mortes eram muito estranhas, que a polícia não estava a fazer caso e que estava assustada. A minha melhor amiga nunca fica assustada. Com nada.

Tentei informar-me na esquadra mais próxima mas todos me dizem para não me preocupar. “São invenções exageradas das notícias”, dizem-me. Mas eu sei que não são. Agarro a mala com mais força. É então que ouço algumas folhas serem pisadas. Paro de andar e olho para trás. Não vejo uma única pessoa. Talvez tenha sido eu. Mas não há folhas caídas no sítio onde estou.

Agarro na mala e apresso o passo. Juro que ouço passos atrás de mim mas, sempre que olho, não vejo nem um cão. Mas está alguém atrás de mim. Eu sei. Eu sinto-o. Agora caminho a um passo quase de corrida. Só não corro porque o meu joelho não permite. Ouço os passos atrás de mim. Estão cada vez mais apressados, tal como os meus. Estou quase a correr. Tenho medo. Os passos atrás de mim aproximam-se. Sinto um perfume forte, vejo a sombra dele.

Ignoro o joelho e tento correr. Rapidamente tenho dores e sei que não vou aguentar. Caio no chão. Tento agarrar o telemóvel mas ele já está em cima de mim e atirou a minha mala para outro lugar e não consigo vê-la. Tento gritar mas parece que estou afónica. Amanhã vou ser eu na capa do jornal. Mas tudo o que eu queria era chegar a casa.

Anúncios
Standard

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s