semana 3

Terça e quintas

Era nesse momento que começavam a cantar a canção:

– Terças e quintas! Terças e quintas! Terças e quintas!

E dançavam pela noite fora dando as mãos e cantando num coro angelical aqueles dias da semana, acompanhado na melodia pelo som do vento a abanar as folhas das árvores, enquanto me pediam em pensamento para matar, para amar, para mudar de lugar, para magoar, para incendiar.

Às vezes ficava na janela do quarto a vê-la dormir. O cabelo tapava-lhe o rosto, o frio invadia-lhe o corpo e o som da chuva a bater na janela serenava-a para um sono de princesa. Atraía-me a sua juventude e a pele tão branca. Os dias passavam e eu continuava a observá-la à janela, pela frincha da porta, de manhã – quando ajudava a mãe na horta – ou à noite – quando o pai lhe pedia para ir à lenha. No banho, fi-la gostar do seu sexo. Na mesa, fi-la gostar da carne. Sozinha, fi-la provar do vinho que passou a esconder debaixo da cama, bem lá no escuro junto à parede, longe da vista do pai.

Como ela, dezenas pelas aldeias do norte eu acompanhei. Escutei e ri-me baixinho. Toquei-lhes no corpo. Invadi-lhes a alma. O senhor prior fez o favor de lhes contar sobre mim. Ele disse-lhes o meu nome, de onde vinha e para onde ia e, claro, o que lhes faria. Ria-me baixinho ao vê-las seduzidas, completamente apaixonadas pela minha imagem e minhas proezas. Eu aproveitava. Incendiava-lhes o sexo, fazia com que se contorcessem na cama, mãos contra o sexo, pintava-lhes a cara de vermelho e os olhos reviravam-se para mostrar o branco. Depois, antes que adormecessem, fazia com que provassem do vinho que servia para lhes plantar sonhos de violência e crueldade. À mesa alguém, voraz, trincava a carne e semeava o ciúme e a inveja na sua frágil mente adolescente.

Duas vezes por semana, nem mais nem menos, as minhas meninas vestiam o luto e seguiam juntas, de mão dada, para o meio da serra. Pelo caminho, ainda perto das luzes das aldeias, sempre em silêncio absoluto e certificando-se de que nenhum homem mal intencionado as seguia, apanhavam paus com os quais, já no descampado, desenhavam símbolos no chão que diziam ser para me venerar. Já longe das aldeias abriam o vinho. Planeavam como magoar as amigas que não sabiam da magia, bebiam do vinho, riam e voltavam a planear tudo outra vez. Decidiam que rapaz destinavam para cada uma e como o queriam amar. Eu ria-me baixinho e, quando acendiam o fogo, instalava-me no centro do círculo que elas formavam e via-as despir do luto para ficarem completamente desnudas, de mão dada, olhando na minha direcção.

Era nesse momento que começavam a cantar a canção:

– Terças e quintas! Terças e quintas! Terças e quintas!

E dançavam pela noite fora dando as mãos e cantando num coro angelical aqueles dias da semana, acompanhado na melodia pelo som do vento a abanar as folhas das árvores, enquanto me pediam em pensamento para matar, para amar, para mudar de lugar, para magoar, para incendiar.

Eu ria-me baixinho da sua ingenuidade mas fazia tudo o que me pediam. E fiz tudo o que me pediram até que cresceram e me fartei delas. Hoje, já estão fartas do sexo, do vinho, da carne e estão velhas, sozinhas, em aldeias abandonadas pelo norte, completamente isoladas e a viver em casas de pedra, com uma chaminé que continua sempre a expelir um fumo negro como o luto que trazem no corpo.
Já morreram há muito tempo só que ainda não sabem que estão mortas. A alma ficou solta e morta no meio da serra, abanada pelo vento e pelo tempo.

E eu continuo a rir-me baixinho de vós.

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