semana 4

Um dia ele ainda vai ver o mundo!

Passa por mim deixando um rastro a Chanel n.º 5 uma gigante loura, linda, traja o negro total, óculos de sol à diva. Vai apressada. Destino: Oslo? Copenhaga? Nórdica com toda a certeza!

Abro um olho e depois o outro, o dia está a nascer e em breve o movimento da cidade aumenta, as carrinhas de entregas começam na lufa-lufa diária, os vendedores ambulantes chegam com as suas trouxas e os lojistas preparam-se para abrir as grades das lojas.

Levanto-me devagar, estico o esqueleto que o colchão é duro! Mas, agradece António, é dos melhores da última década. Arrumo as minhas tralhas, dirijo-me ao balneário, lavo os olhos e tento pôr-me o mais apresentável possível. Quem me viu e quem me vê, há 20 anos era o mais bonito do bairro, António Gingão, ao dispor da mulherada, mas a vida foi madrasta e aqui estou agora. Não lamento, não tenho pena de mim, a D. Gertrudes, minha querida e saudosa mãezinha sempre o disse:

– Toni, não semeeis ventos, ai filho, que depois vêm as tempestades! – Enquanto rodava as contas do rosário.

Sábia D. Gertrudes!

Vou matar o bicho.

– Bom dia Sr. António – Grita-me a sempre bem-disposta Irene.

A Irene trabalha na cozinha da Associação desde que para cá vim, há 4 anos.

– Bom dia Dona Irene – Brindo-a com o meu melhor sorriso – O que temos hoje para matar o bicho?

– Hoje esmerei-me Sr. António, ora veja só, há café com leite e papo-seco com manteiga dos Açores. Um pitéu – Gargalha a Irene com as duas mãos na farta cintura.

O meu sorriso é a resposta.

Depois do mata-bicho, pego na mochila para mais uma jorna, e saio à rua. Está um dia bonito, um pouco frio. Agasalho melhor o pescoço, mesmo depois de ter vivido na rua tanto tempo ainda sou sensível às mudanças de temperatura. Vá-se lá perceber!

Que belo dia este o do ano novo.

Apanho o 744 da Carris até à última paragem. O aceno costumeiro ao Sr. João, motorista da Carris há pra lá uma vida.

Quando me apeio, olho-o como se fosse a primeira vez, a grandiosidade, os sonhos, as quimeras travada, as partidas, as chegadas, tudo tu vês impávido e sereno meu querido aeroporto, fico sempre maravilhado, como se fosse a primeira vez. Entro!

Onde irei hoje?

Olho o placard da entrada e escolho!

7h50m voo 651 com destino Londres, não, faz lá muito frio!

8h00m voo 917 com destino Moscovo, não, porra, lá é ainda mais frio!

Passa por mim deixando um rastro a Chanel n.º 5 uma gigante loura, linda, traja o negro total, óculos de sol à diva. Vai apressada. Destino: Oslo? Copenhaga? Nórdica com toda a certeza!

8h05m voo 792 com destino Rio de Janeiro, não, os assaltos assustam-me!

Reparo num casal cómico, orientais, pequenos, com máquinas fotográficas em riste, bagagens maiores que eles, pala para o Sol na cabeça, medrosos, agarrados aos seus pertences, como se estivessem prestes a ser assaltados! Onde irão? Tóquio, tal viagem só com escala, Frankfurt? Amesterdão?

8h10m voo 653 com destino Barcelona, não, muito perto!

Lá vai o do costume, todas as segundas vejo-o passar pelas 10h, sempre a falar ao telemóvel a puxar pela pasta de rodinhas para o computador. O fato de executivo bem engomado. O destino, Bruxelas, já o sei, a cidade da escultura em forma de átomo que por lá construíram. Será grande?

13h15m voo 793 com destino Carracas, não, ainda não almocei, vou procurar uma bucha. Vasculho no check-in e junto às portas de embarque. Incrível do que as pessoas se desfazem antes de uma viagem!

15h00 voo 651 com destino… Não consigo acabar de ler… quatro braços arrastam-me até ao exterior. Não ofereço resistência. Não é a primeira vez.

– Aqui não é sítio para vagabundos! Diz-me o polícia de serviço – Espero não o voltar a encontrar por aqui!

– Desculpe Sr. Polícia, não volta a acontecer – Digo, mas sem o encarar.

Finjo ir embora, escondo-me atrás de um autocarro, são 16h o turno vai rodar, troco a camisola, deixo a azul, visto a encarnada, os do próximo turno não me vão reconhecer.

António, amanhã tens de cortar a barba, não vá o mafarrico polícia voltar!

16h11m volto a entrar nas partidas do terminal 1.

16h55m vejo passar um grupo de malta nova, calças largas, muita cor, gargalhadas, rastas, guitarras e jambés, liberdade a caminho das Caraíbas, deixando um rasto de marijuana pelo meu banco. Doem-me as cruzes, são 4 anos de aeroporto, são 4 anos de partidas de despedidas, de viagens, parece pouco, mas multiplica 4 por 365, e, é muito, é enorme, mais do que aqui o António Gingão achava possível.

17h15m voo 891 com destino Porto, e que bem que me sabia um cálice do famoso vinho! Mas não, não beberei jamais! Eu, António, agora, voltei a ser homem de palavra e álcool não entra nesta velha carcaça.

Uma jovem mãe com um bebé lourinho no marsúpio despede-se em lágrimas de um jovem rapaz, o pai da criança presumo, que a abraça e beija a testa da cria,  duas malas bem grandes os ladeiam. Desvio o olhar, aquele momento é deles. É triste, todos os dias vejo famílias desfeitas por viagens, em despedidas.

17h45m voo 901 com destino Luanda, ah, já sei para onde vai o jovem pai. Sacrifícios que se fazem para sustentar a jovem família.

Impaciente, são quase 18h00m o 744 não tarda em partir, a janta na Associação começa às 19h30m e ainda tenho de me lavar.

Regresso.

A Dr.ª Joana quer que eu largue esta vida! Não consigo, disse-lhe na última consulta: – Eu sei que a Doutora e a Associação querem ajudar, querem que arranje trabalho, que ganhe a vida, mas também sei que querem que seja feliz e que não volte a cair no vício e só viajar me deixa assim, livre, sem tentações.

– Oh Sr. António sempre com a resposta pronta – Diz-me a Doutora rodando o lápis de carvão com o qual anota as palavras no meu cadastro.

– Menina Joana. Com o devido respeito posso tratá-la assim? Ela acena com a cabeça e eu continuo. Não me tire o aeroporto, não me tire aquela gente, não me tire o placar com as horas, não me tire as bagagens a rodar de um lado para o outro, não me tire aquelas viagens. Pode não perceber, mas são minhas também, não só deles – digo emocionado com os olhos marejados – Sabe, aqui o António Gingão nunca tinha saído desta Lisboa, nem o Alentejo conheço e aqui conheci toda a Europa, fui até às Áfricas, a sítios que eu nem sabia o nome, vi gente de todas as raças e credos, vi e vivi muitas histórias, aqui o Gingão é feliz, aqui o Gingão abarca o mundo – e choro como uma criança.

Ela levanta-se da cadeira, pousa a pasta e o lápis no assento, dirige-se a mim e abraça-me. Nada diz, nada precisa dizer.

Amanhã, lá voltarei, amanhã serei um pouco maior e saberei um pouco mais. Amanhã vou viajar, outra vez!

Haveria gostar de me ver a D. Gertrudes, minha mãe, deito a cabeça na almofada e ouço-a mais uma vez, ela que ainda povoa os meus pensamentos:

– O meu Toni é variado da cabeça, não tem tino o moço, mas um dia ele ainda vai ver o mundo!

D. Gertrudes, saudosa mãe, deve estar a senhora orgulhosa do seu filho Toni!

Anúncios
Standard

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s