semana 4

A viagem

As amigas de Sílvia queriam convencê-la a partilhar casa na cidade mas ela era teimosa, não deixaria a sua terra para trás. Os pais precisavam dela. Não trocaria uma paixão pela outra. Sim, a viagem era dura, todos os dias para trás e para diante, mas era também a sua maior fonte de inspiração.

A manhã era de chuva. Pessoas corriam atarefadas pela plataforma, chapéus-de-chuva chocavam enquanto muitos tentavam não perder o comboio que estava a partir do outro lado da linha. O sinal sonoro anunciava a partida ainda que muitos forçassem a entrada. Mas na última carruagem reinava o silêncio, as pessoas aproveitavam o momento de se sentar, no silêncio, para respirar de alívio do caos da manhã.

Sílvia tira o bloco de desenho e lápis e começa a desenhar. Equilibra-o nos joelhos fletidos que apoia no banco da frente e nem com os solavancos do caminho o estirador improvisado se move. Exatamente três horas até à Faculdade de Belas Artes dar-lhe-ão tempo para se inspirar. Hoje são as mãos de D. Beatriz. Dedos compridos, ossudos, nós pontiagudos e veias salientes. Mãos pálidas que escolhem fazer a viagem agarradas ao banco da frente. Sílvia sabe que ela escolhe sempre o mesmo lugar apesar de vir da estação anterior quando a carruagem ainda vem vazia e se pode escolher um bom lugar. Perto da porta é o melhor para ela e para as sacolas de serapilheira que àquela hora já traz cheias do mercado. Em quatro ou cinco paragens vai avistar a sua casa, mas ainda é uma bela caminhada da plataforma até ao cimo do morro.

As amigas de Sílvia queriam convencê-la a partilhar casa na cidade mas ela era teimosa, não deixaria a sua terra para trás. Os pais precisavam dela. Não trocaria uma paixão pela outra. Sim, a viagem era dura, todos os dias para trás e para diante, mas era também a sua maior fonte de inspiração. A trança da Anita, sabia que estava lá algures. Folheava o livro. Ela só faz uma paragem, é um trabalho em curso, todos os dias mais um bocadinho e Sílvia tinha de ser rápida. Ali estava ela, a trança que parecia de boneco animado. A cada dia mais movimento, mais contorno mais e mais traços entre uma e outra paragem. Levantava-se nos minutos finais de viagem e ficava à porta, como se estivesse com pressa para sair. Passe social ao pescoço, apressada para se fazer ao caminho que ainda lhe faltava para alcançar a escola antes da chamada inicial. Apenas uma paragem para Sílvia, mas muitos quilómetros para uma criança cuja sorte ditara que nascesse longe de todas as outras crianças e por isso não houvesse escola para si.

De volta às mãos da dona Beatriz, agora no assento do banco a seu lado, de frente para Irina que dormita encostada à janela. Algo chama a atenção de Sílvia. É a bata que começa a deixar-se ver pela abertura do casaco. Algures no caderno já há um registo assim. Sílvia volta a ele enquanto D. Beatriz sai lentamente com as sacolas.

Irina, imigrante em busca uma vida melhor, tinha ainda assim uma que não se desejava a muita gente. Numa manhã pior confessara-se a Sílvia. Hoje ainda não abrira os olhos desde que Sílvia entrara no comboio. Acabava de vir do hospital onde era auxiliar. Aproveitava para fechar os olhos pois quando chegasse a casa era altura de preparar os filhos, que ficavam a dormir em casa da mãe, e leva-los à escola. Três horas depois já estava a servir almoços num restaurante perto de casa e saía diretamente para o comboio que a levava de volta ao hospital. Tinha dois filhos sem pai e uma mãe que sustentava para ter ajuda com os miúdos. Aquele era o seu momento de paz.

A última parte da viagem era feita a sós. Até ao final não havia paragens, ninguém saia ou entrava e naquele comboio ninguém ia, como Sílvia, até ao fim. O desenho que fazia nessa altura era o do próprio comboio: dois, três, tantos e diferentes quantos passageiros viajavam nesse dia. Porque aquele comboio era um e eram tantos. Tantas viagens numa só…

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