Luzes do Norte

Aperto o cinto, instalo as pernas, desço a ridícula persiana que não me deixa prever a paisagem e fecho os olhos.
Não ouço as normas de segurança, nem sei quem se sentará ao meu lado.
Irei acordar, quando sentir a mão da assistente de bordo e ouvir a voz, de simpatia exagerada, dizer: vamos aterrar.

A antecipar a minha entrada no avião, um bando de pássaro sobrevoa a minha cabeça, mal saio da porta do prédio que deixo para trás.
Parece que sabem que com eles  irei partilhar, por algumas horas, os ares.

Quando acordei apercebi-me que tudo isto foi uma imaginação, da minha enorme cabeça, que tende a esquecer-se de muitos dos pormenores que deveria estar a guardar.
Dos meus desejos, antes de morrer, existe esta viagem, todas as semanas, meses e anos, a bailar em mim. Sei que no dia em que este pequeno sonho acontecer, irei chorar a conclusão de uma vontade maior do que eu.

Há minutos atrás, antes de descer as escadas com estrondos enormes, a mala nem queria fechar. De tão cheia. Tão cheia de livros para não esquecer cada recanto. Tão cheia, com as camisolas mais quentes que consegui encontrar nas minhas gavetas.
Deixei o quarto onde moro completamente desfeito. Parece que não irei voltar tão depressa e não precisarei de me preocupar com isso. Deixarei para outra altura.
Agora tenho um caminho comprido para fazer. Arrastar esta mala com 15 quilos, não vai ser fácil. Principalmente quando os passeios tem uma calçada irregular. Abstenho-me do barulho que se ouve na cidade e penso na calma que irei encontrar dentro e algumas horas. Levo o cachecol preparado, mesmo que hoje, aqui onde ainda estou, faça um calor descomunal.

Espero adormecer durante o voo, para acordar e ver a ilha que rege a minha vida. Para sentir o frio gelar-me o nariz e encher-me os olhos de água.
Quero chegar a casa.
Penso nisso e em todas as coisas que irei fazer e que durante anos planeei, enquanto faço o check-in, deixo a mala ir no tapete rolante, passo pela segurança e me sento a ver aviões com destinos diferentes ao meu, partirem.

Quando embarco, mesmo antes de me sentar olho todas as pessoas que comigo vão partilhar as próximas horas. Não vejo caras familiares, o que me agrada. Vou conseguir finalmente fugir da minha sociedade. Dos problemas e da protecção familiar. Vou poder esquecer os erros que fui cometendo e que me guiaram até aqui.
Aperto o cinto, instalo as pernas, desço a ridícula persiana que não me deixa prever a paisagem e fecho os olhos.
Não ouço as normas de segurança, nem sei quem se sentará ao meu lado.
Irei acordar, quando sentir a mão da assistente de bordo e ouvir a voz, de simpatia exagerada, dizer: vamos aterrar.

Coloco o gorro pela cabeça, aperto mais o cachecol, fecho o casaco que tirei da mala e encaminho-me para a porta de saída.
Adeus memórias. Olá casa.
O frio brinda-me á minha chegada e abraço-o com um sorriso.
Retiro o mapa a custo, da mochila que trago ás costas. As luvas a escorregarem, ma lá o consigo alcançar. O primeiro lugar está marcado com uma cruz.
Livraria da água. Library of Water.

Um carro espera-me. Levanto a chave, ligo o gps. Demoro a conseguir que colabore comigo.
Duas hora até ao destino. Mais horas dentro de um transporte. Mas agora posso parar. A paisagem de um verde muito escuro que se aproxima de mim a cada quilometro, pode ser vista. Paro o carro demasiadas vezes e deslumbro-me com tudo o que nunca pensei ver.
A livraria fica num ponto tão alto, que sei que terei medo. Irei sentir pequenas borboletas a dançar na minha barriga. Cheias de medo e de emoção. O desconhecido agora é um amigo tão familiar.

Chego ao destino. Estaciono o carro. Saío, e fico vários minutos a tentar observar tudo o que este sonho me dá. A água de um azul que não sabia que existia, as rochas que escondem o verde.

Entro no desconhecido, procuro uma cadeira ou sofá onde me sentar.
Quero respirar um pouco. Parece que até agora contive sempre a respiração. Ainda não me apercebi que estou a milhares de quilómetros de casa e que concretizei um desejo.
Fiz a viagem da minha vida e agora só quero descansar. Adormecer.

Tiro o livro de Sjón que trago comigo. Pouso-o na mesa e afasto-me. Vou até à janela panorâmica que dá para o mar e antecipa pequenas formações de rochas mais à frente.
Fico embriagada neste estado de fascinação.

Quando acordo, o livro de Sjón está ao meu lado. Tenho de parar de adormecer com os livros na cama, penso.
Tenho o pijama mais quente que tinha encontrado no cesto da roupa lavada.
Mas estou em casa. Não fiz a minha viagem. Não alcancei o lugar da paz.

p.s: esta semana foi complicado. o texto custou a ser escrito. talvez porque o tema desse pano para mangas.
descobriram onde fui?

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