semana 4

Ninguém vai a Paris sozinho

Ninguém sobe à Torre Eiffel sozinho. Quer dizer, não se fez um monumento daqueles para depois se chegar lá a cima e não ter um beijo com que se recuperar o fôlego.

Ia jurar que perdi a inocência – a que me restava – no dia em que subi a Sacre Coeur, no bairro parisiense de Montmartre. Gosto de pensar que algum pintor pegou nela com muito cuidado, a colou numa tela e a pincelou com tinta. Não quero julgá-la irreversivelmente perdida. Não sei se nessa altura ainda me sobrava muita porque, quando olhamos a vida do alto dos nossos vinte anos, achamos que já vivemos tudo. Ainda não passámos por metade do que nos está reservado, mas as garras dos dias gostam de se cravar nas nossas costas e deixar-nos muito curvados, quase como se já fossemos velhinhos.

Ninguém vai a Paris sozinho, disseram-me tantas vezes. Paris é para se percorrer com uma mochila às costas, cheia de amor. É para se ver de mãos dadas, para se respirar a dois.

Ninguém sobe à Torre Eiffel sozinho. Quer dizer, não se fez um monumento daqueles para depois se chegar lá a cima e não ter um beijo com que se recuperar o fôlego.

Dizia eu que deixei a inocência em Sacre Coeur. Devo tê-la pousado na escadaria, quando me sentei, para depois me esquecer de voltar a pô-la dentro da mochila e junto ao coração. Calculo que seja o conselho de qualquer mãe: o de guardar a muito bem a inocência, seja no bolso ou dentro de uma caixa, para a conservar como se ela encerrasse em si tudo o que significa sobreviver.

Saiu de dentro de mim naturalmente, ao ritmo lento das lágrimas que deixei cair. Soltei-as (e soltei a inocência) timidamente e sem esforço. Só quando estava desprovida de tudo – das ilusões, das bengalas, das mentiras criadas por mim mesma – é que compreendi que havia dentro de mim uma urgência de ficar sem o que me sobrava. Só a música me cobriu a nudez. Os guinchos da guitarra e a rouquidão de uma voz, a que não consigo associar uma cara, taparam-me a pele. Descobrir que não somos, juntamente com outra, duas almas a nadar num aquário, deixa-nos mais vulneráveis do que se de facto o fossemos.

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