30 minutos

E só viajando daquela forma poderia jogar ao seu jogo favorito: adivinhar histórias e inventar outras sobre as pessoas com quem se cruzava no dia a dia. Não existe nada mais complexo do que o ser humano com todos os seus aromas, sentimentos e disposições.

Acordara uma noite a sentir um desejo incontrolável de se sentir normal. Só por uma noite, só por um bocadinho. Haviam-se passado demasiados anos desde a última vez que se sentira assim.

Nessa noite, decidiu mergulhar na bruma nocturna dos degenerados, dos que não temem a noite e dos que evitam a chegada da manhã, tal como ele, embora de resto muito diferentes.

Entrou num autocarro que fazia a ligação entre a sua zona e o cais da cidade. Há demasiados anos que não o fazia, mas se se queria sentir normal, era por ali que devia começar.
Não havia muita gente no autocarro àquela hora, se bem que, mais à frente no seu percurso, esta condição se tenha alterado ligeiramente.

Numa das várias paragens do autocarro, entrou uma mulher que se sentou ao seu lado.
Teve um deja-vu dos seus tempos de comum mortal em que não fazia este percurso voluntariamente, mas antes por necessidade de cumprir as suas obrigações. Havia coisas que não mudavam. Tanto agora como antes, estranhava sempre que alguém se sentava ao seu lado, especialmente quando já se havia habituado a viajar sozinho. A quebra desta condição nunca lhe agradou.

Não havia nada especial nela, nada que a distinguisse da restante massa populacional. Excepto o seu cheiro.
Entrou-lhe pelas narinas frias sem aviso e nelas se instalou. Era um aroma também ele frio, mas não de uma forma agradável. Na verdade, o cheiro era algo horrível e só após algum tempo é que percebeu que a mulher seria, provavelmente, peixeira.
Não lhe parecia que o cheiro emanasse propriamente da sua pele, mas do seu cabelo, do seu casaco, de tudo o resto que teria provavelmente ficado impregnado com aquele cheiro cru e desconfortável.

Cinco paragens à frente, entrou alguém que a mulher reconheceu logo. Abandonou o seu assento, ao seu lado, e saltou para outra fila, ao lado da sua conhecida.

O seu sentido olfactivo sentiu um alívio imediato, mas não conseguiu deixar de se questionar se a amiga da sua ex-companheira de assento sentiria o mesmo que ele. Será que o cheiro a incomodava? Se a incomodava, não o demonstrava. Mas, e daí, nem ele. Por dentro, nos seus pensamentos, a história era outra.

Mais duas paragens e saíram as duas, entrando sem medo na noite.

Ele permaneceu no autocarro até ao fim da viagem, sentindo-se grato por aqueles trinta minutos que, inesperadamente, motivaram nele uma inspiração que não poderia ter retirado de mais nenhum sítio. Não aquele tipo de inspiração. Aquele tipo que se adquire enquanto espectador, enquanto se observam os outros no silêncio confortável de uma relação de simples desconhecidos.

E só viajando daquela forma poderia jogar ao seu jogo favorito: adivinhar histórias e inventar outras sobre as pessoas com quem se cruzava no dia a dia. Não existe nada mais complexo do que o ser humano com todos os seus aromas, sentimentos e disposições.

E que melhor maneira haverá para um escritor criar personagens realistas?

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