semana 5

O lobo que queria guardar ovelhas

Ao fim do terceiro dia como pastor, não conseguiu evitar olhar as ovelhas como as presas que, noutras circunstâncias, o seriam. O seu cheiro enchia-lhe os pulmões, os seus pescoços tosquiados provocavam-no com as suas veias pulsantes, carregadas do néctar vermelho e fresco que tão bem recordava.
Todos os dias após o terceiro foram uma constante tortura.

I

O lobo Fenrir acordou cansado. Cansado da luz intensa e do calor dos archotes que os aldeões hasteavam em sua perseguição; cansado de fugir; cansado de lutar.
As marcas no seu corpo forte eram mais que muitas, mas havia sempre espaço para mais. Não se lembrava de onde tinha nascido o ódio entre si e a espécie humana; a única certeza que tinha era de que os anos já eram demasiados para quantificar o terror que trazia a Trondhjem.
Com o passar do tempo, tinham-se tornado uma espécie de lenda, de história aterrorizante que os avôs contam às crianças em volta da segurança das suas lareiras.

Longe estava o tempo em que se tinha orgulhado desta sua condição. Agora que estava velho, tudo o que desejava era sentir conforto e, quem sabe, aquilo a que sabe o afecto humano, algo de que Ivar, o cão pastor da aldeia cuja floresta escolhera para sua casa nos últimos anos, beneficiava.

Um dia, Fenrir aproximou-se do cercado de ovelhas guardado por Ivar, que desatou a ladrar furiosamente.

– Calma, amigo. Não vim cá para isso nem quero as tuas ovelhas. Vim propor-te uma troca. – anunciou o lobo.
– Não tens nada que eu queira. – retorquiu Ivar.
– Como é que sabes? Queres pastar ovelhas até ao fim da tua vida? Nunca quiseste conhecer a glória de uma batalha e ganhar o teu lugar junto a Odin?
– Claro que sim… mas cada um tem o seu lugar. O meu papel é pastar ovelhas, o teu é lutar. – respondeu, parecendo determinado.
– Isso é o que te dizem os humanos. Nós fomos criados para agir consoante a vontade dos deuses, tal como eles. Não devemos obediência senão aos deuses. Vais dizer-me que nunca ouviste o chamamento de batalha de Thor?
– Uma vez, há muito tempo… O que queres em troca? – Ivar voltou ao seu estado inicial de desconfiança.
– Em troca proponho precisamente uma troca. Eu fico aqui, no teu lugar, a aguardar as ovelhas dos teus humanos e tu lutas e caças em meu lugar, como chefe da alcateia. – era a proposta de Fenrir que, se aceite por Ivar, lhe traria aquilo que desejava.

Ivar estava desconfiado, isso era claro. Porque confiaria ele num lobo que queria guardar ovelhas? Mas esta seria a sua única oportunidade para ser mais que um simples cão-pastor. Era a sua vez de saborear a glória dos guerreiros e reservar um lugar junto a Odin em Valhala.

E assim, Ivar e Fenrir trocaram inverteram os papéis. O lobo iria agora guardar as ovelhas e o cão iria lutar e liderar a alcateia.

II

Ainda não sido completado um mês desde a troca de Ivar e Fenrir quando ambos começaram a questionar a sua escolha.

Fenrir liderava as ovelhas para o cercado todas as manhãs à alvorada, até onde Reiår, o humano, o acompanhava e deixava até o sol de pôr.
No início, Reiår tinha estranhado e até se oposto à presença de Fenrir e à ausência de Ivar, mas com o passar dos dias, o lobo parecia ter assumido perfeitamente o papel do cão, pelo que teve que aceitar.

Mas o conforto, um abrigo quente e a mudança da relação com a espécie humana não trouxeram, afinal, a resposta para a inquietude de Fenrir. Ao fim do terceiro dia como pastor, não conseguiu evitar olhar as ovelhas como as presas que, noutras circunstâncias, o seriam. O seu cheiro enchia-lhe os pulmões, os seus pescoços tosquiados provocavam-no com as suas veias pulsantes, carregadas do néctar vermelho e fresco que tão bem recordava.
Todos os dias após o terceiro foram uma constante tortura.

Para Ivar, a experiência não tinha sido mais fácil e, ao fim do terceiro dia, tinha sido dolorosamente ferido pelo líder da alcateia rival, se bem que os membros da sua própria alcateia já eram ameaça suficiente, uma vez que nunca o tinham aceite como líder.
Todos os dias após o terceiro foram uma constante tortura.

Fenrir sonhava acordado em correr junto aos seus irmãos, em vencer novas batalhas, em sentir a doçura do sangue a escolher-lhe livremente por entre os dentes afiados.
Ivar, por outro lado, ansiava pela sua casa e pelo seu lugar abrigado, no chão quente de madeira, aos pés da cama de Reiår.

III

Fenrir foi o primeiro a quebrar quando, um dia, não suportou mais a tortura diária de ser o guardador das suas presas, sem provar da sua carne. Quando o sangue se misturou com o branco do pêlo curto da ovelha que matara, soube que tinha dado por terminada a sua condição de pastor. Tinha que voltar para a sua alcateia. Por mais velho e cansado que pudesse estar, nunca seria um animal dócil, facilmente domesticado pelo Homem.

Fenrir tinha sido criado pelos deuses para fazer exactamente aquilo que tão bem sabia fazer e – pensou – assim o tinha sido também Ivar. Nenhum papel era mais importante que o outro, eram apenas diferentes e, nesse momento, desempenhados pelo animal errado.

No mesmo dia, abandonou o cercado e mergulhou na densa floresta de Trondhjem onde, passado pouco tempo, se reuniu novamente com a sua alcateia. Naquele momento, Ivar estava livre, assim como o próprio Fenrir.

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Moral da história

Não devemos negar o nosso instinto e fechar os olhos àquilo que nos faz sentir bem e em que somos realmente bons. Não devemos negar-nos experiências que queiramos viver, mas devemos saber reconhecer as nossas vitórias e derrotas.

Nota: As fotos foram tiradas por mim e publicadas previamente neste artigo entitulado “Lobos: os mitos, a perseguição e como podemos ajudar a preservá-los“.
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