semana 5

Três tristes lobos

Ooohhh, soltou o público num tom pesaroso. Puderam ver-se lágrimas por detrás dos óculos de Abílio Lobo, aumentadas pela graduação das grossas lentes. Acenou e desceu. Quase imediatamente outro Lobo tomou o seu lugar.

Declaro aberta a 13ª Assembleia Extraordinária Lupina, convocada de urgência para pôr fim às ideias erróneas que a humanidade tem criado e – pior! – difundido acerca de nós.

Ao falar, o Grande Lobo abafou os uivados que preenchiam a sala. Lobos de todas as raças, tamanhos e origens estavam por fim reunidos com um objectivo comum.

Meus irmãos, hoje ouviremos três exemplares Lobos, fiéis à espécie, que foram caluniados pelos humanos. Não percamos mais tempo com introduções, é preciso agir.

Pequeno e magrinho, quase mirrado, o primeiro Lobo subiu a palco. Atrás do púlpito, a audiência apenas conseguia distinguir duas pequenas orelhas. A organização da Assembleia agitou-se. Corrida para aqui, gestos para acolá, cheguem-me aqui um banco, não vêem que ele não chega ao microfone?

Lá se resolveu e puderam, por fim, ver-lhe o focinho alongado. O que no caso dele dava especial jeito, já que lhe servia para pousar os óculos, sem os quais não veria uma ovelha à frente.

Pigarreou. Boa tarde a todos, estou aqui presente para vos contar a minha história. O meu nome é Abílio Lobo, mas a maioria de vocês conhece-me como Lobo Mau.

O público não aguentou e explodiu num riso colectivo.

Riam, riam. Já estou habituado. Habituado e farto, meus irmãos! Eu só quero estar descansado na minha toca, mas naquele dia não havia como fugir – tinha de ir à farmácia comprar qualquer coisa para uma gripe maldita que me atacara. A meio do caminho cruzei-me com aqueles três porcos. Toda a gente os conhece como porquinhos, tão pequeninos e fofinhos, mas se os vissem iam concordar comigo. Não é por acaso que existe a expressão “feios, porcos e maus”. Meteram-se comigo, gozaram com o meu tamanho e eu juro que só queria sair dali. Tossi e espirrei de tal maneira que, sem querer, lhes deitei duas das barracas abaixo. Ainda tentei compensá-los, mas começaram a cantar aquela canção horrenda, “quem tem medo do Lobo Mau, Lobo Mau, Lobo Mau”, soltavam aquele riso de porco e eu fugi o mais depressa que a minha gripe deixou.

Ooohhh, soltou o público num tom pesaroso. Puderam ver-se lágrimas por detrás dos óculos de Abílio Lobo, aumentadas pela graduação das grossas lentes. Acenou e desceu. Quase imediatamente outro Lobo tomou o seu lugar.

Meus irmãos, a minha história não é menos horrenda. Este Lobo que aqui vêem tentou fazer o bem, tentou salvar a vida de uma criança, mas foi acusado de pedofilia, homicídio e sabe-se lá mais o que os homens inventam. O que é que vocês fariam se vissem uma menina inocente, perdida no meio do bosque, à procura da avó? Deixavam-na ali? Comiam-na? Não! Fariam o que eu fiz, meus irmãos: tentavam levá-la a casa o mais depressa possível, pelo atalho mais rápido.

A verdadeira história, poucos a sabem. Aquela menina era maltratada pela avó e pelo tio, o caçador malvado que me prendeu até chegar a polícia. Mas como os tribunais são feitos de homens e a nós ninguém nos ouve, quem levou as culpas e um sedativo fui eu.

Os restantes lobos bateram palmas e cochicharam entre si. Tu sabias disto, Gaspar? Eu cá não fazia ideia! Alguns davam até graças a Anúbis por nunca se terem cruzado com tão perigosa criatura.  Por esta altura, algumas Lobas e Lobitos tinham já abandonado a sala.

Foi a vez do terceiro e último Lobo contar a sua experiência.

Olá a todos, chamo-me Francisco Lobo e até sinto que a minha história não é assim tão horrível quanto isso. É mais uma coisa que chateia, uma espécie de comichão interior. É que os homens estão sempre a falar de mim nas costas, a acusar-me de lhes comer as ovelhas e tudo por causa de um pastor idiota que nada mais tinha que fazer do que inventar histórias.

Um dia, mal pus os pés nas imediações da aldeia, caíram-me todos em cima. É ele, é ele, gritaram. É o Lobo de que o Pedro tanto fala. Matem-no, que quer comer-nos as ovelhas. Não sei como escapei, mas nunca mais me aproximei deles. Falem o que quiserem, façam as acusações que lhes apetecer, mas não nos magoem!

Os Lobos uivaram em tom de manifestação. Homens longe, homens longe, homens longe!

Depois de voltar a palco, o Lobo Grande deixou-se ficar em silêncio, à espera que os ânimos abrandassem. Há alturas na vida de um chefe em que é preciso deixar a frustração do grupo sair, para que depois se possa agir racionalmente.

Meus Lobos, aquilo que vos recomendo é que sigam o exemplo do nosso caro Francisco Lobo: afastem-se dos homens. Nada de bom pode vir dali. Afinal, todos nos lembramos do caso da nossa irmã Loba, que generosamente acolheu aqueles dois gémeos na sua caverna, e também todos sabemos a confusão que isso deu.

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