A Sala de Cinema

As luzes apagam-se. Encosto-me mais confortavelmente na cadeira, o chão que se cola aos meu pés e a mala que mantenho tão perto de mim, que me incomodará a meio do filme.
Não entrou mais ninguém. Estou sozinha com mais cento e cinquenta lugares vazios.
Deixo o filme enrolar-me. Não dou pelo intervalo. Quase que adormeço, mas o som que trespassa as colunas está tão alto, que volto a abrir os olhos de um salto.

A sala de cinema meia às escuras. Sem ninguém por trás da cabine que lançará o filme, pego no telemóvel para tirar o som e pôr o brilho no mínimo. Não quero ser eu a pessoa que incomodará todos os outros espectadores a meio do filme. Porém, poderei ser a única pessoa a assistir ao filme. Todos trabalham a esta hora. Sou a única com o tempo demasiado livre. Com os dias preenchidos de nada, que conta a moedas e usa todos os cartões de desconto, para conseguir encher o dia com uma única distracção diferente.

Visto-me, sempre a pensar que não devo sair de casa. O dinheiro dará para outra coisa. Quem sabe se não precisarei dele para comer amanhã. Antes de ligar o carro, ainda penso em sair outra vez, despir a roupa e enfiar o pijama.

Escolhi um filme ao acaso. Não sei o que vou ver. Hoje tão pouco importa. Quero queimar umas horas, esquecer que não tenho compromissos, nem para hoje nem para amanhã.
Gostava que as luzes se apagassem totalmente, mal entro na sala. Odeio este misto de incerteza. Este misto que me deixa prever os rostos das possíveis pessoas com quem vou partilhar a próxima hora.
Sei que ainda vou olhar os avisos, ver trailers de filmes, que irei querer vir ver.
A internet já não me deixa ver em casa, no ecrã quase demasiado pequeno, do meu computador. A verdade é que também perdi a vontade dos filmes gratuitos que me fazem ficar em casa. Um lugar que agora detesto e no qual me deixo viver todos os dias.

As luzes apagam-se. Encosto-me mais confortavelmente na cadeira, o chão que se cola aos meu pés e a mala que mantenho tão perto de mim, que me incomodará a meio do filme.
Não entrou mais ninguém. Estou sozinha com mais cento e cinquenta lugares vazios.
Deixo o filme enrolar-me. Não dou pelo intervalo. Quase que adormeço, mas o som que trespassa as colunas está tão alto, que volto a abrir os olhos de um salto.
Fico até a tela se tornar completamente negra.
Aprendi, enquanto estudava cinema, que os créditos fazem parte. Seria uma afronta ao realizador e a toda a equipa, voltar as costas e sair a meio. Sem poder ler o nome de todos, que tenho a certeza, suaram durante a rodagem.

Levanto-me contrafeita, pego na mala e encaminho-me para a porta, antes que a fechem e fique aqui presa até ao próximo filme.
Enquanto procuro o carro, o qual já não me lembro onde estacionei, penso no quanto o cinema está mau.

Não me fez esquecer o dia reles que tive. Os problemas que começo a acumular. Fiz uma cara tão feia ao lembrar algumas cenas, que as pessoas olharam para mim, com medo que caísse ali mesmo aos pés delas, com algum mau estar que elas não saberiam socorrer.

Depois de algumas quartos de hora, entro no carro e penso que apesar da porcaria que me deitaram no ecrã, senti-me mais em casa durante aquelas horas, do que quando abrir a porta e entrar na minha cozinha, pousar as chaves em cima do frigorífico e ligar a minha televisão, na sala que os meus pais mudaram, quando ainda estava na Universidade.

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