Topo do Mundo

Com o espírito renovado, acedo aos apelos dos glúteos e saio de cima do carro. “Devia ter ido buscar a manta” E devia ter trazido algo para beber, a sandes de carne assada e folha de alumínio deu-me sede. Entro no fiera, fecho a porta e ouço o assobio do vento que quer entrar comigo.

Sento-me no capot do carro e penso, inadvertidamente, que os capots dos carros deviam ser mais confortáveis, mais propícios à melancolia que habita no acto de nos sentarmos sobre eles.

Desembrulho a sandes que a minha mãe fez para mim, claro que a folha de alumínio não sai de uma só vez e vou cuspir pedaços dela quando só queria pão e carne assada, talvez maionese.

Chegar cá acima não é fácil mas eu conheço um caminho menos íngreme que não implica que eu tenha um todo-terreno e tracção maravilha. Coitado do meu fiera, já me deu alegrias demais para o trocar por um monster truck qualquer.

Equaciono se vou buscar a manta à mala ou não mas ainda agora consegui que o meu rabo deixasse de praguejar contra o metal frio e nada solícito do carro. “O que é uma brisa? Quando morrer vou deitado.” Não me mexo.

Lá em baixo e lá ao longe, até a vista se perder de vista, as luzes brilham, qual constelação desassossegada. Há vida por entre as luzes, vida honesta, vida vadia, vida louca, vida fresca, vida exausta, vida. Assalta-me sempre a alma, estar aqui em cima, apenas a lua a iluminar-me o topo da cabeça e sinto-me um imperador a mirar o mundo do seu topo, o seu mundo. A imaginar o que estará a fazer a pessoa que mora ali daquele lado “Será que ela, se uma ela for, vai ao pão todas as manhãs? Ou será que é um homem, velho e bebedolas que grita com os carros que passam?”. A diferença é que eu não puxo os fios de ninguém, eu não dito as regras e eu não as faço cumprir, o império caiu e é cada um por si.

É aqui, no breu azulado da noite, que investigo o que há em mim, que o analiso, e é aqui que eu decido o que fazer a seguir. Foi numa noite igual a esta que percebi que preferia estar só do que mal acompanhado, que o amor nem sempre serve como uma bandeira que temos obrigatoriamente de levar a bom porto e que nem mesmo quando duas pessoas se amam, conseguem ser felizes juntas.

Foi com o rabo sentado no capot do fiera que escolhi ir atrás do que fazia vibrar o meu coração, aos poucos para não estranhar, cimentando o caminho que não deixei que fossem outros a trilhar. E hoje, do alto da serra, a lua, o vento e as luzes da cidade recebem uma versão nova de mim, chegou a hora de ir mais além.

Com o espírito renovado, acedo aos apelos dos glúteos e saio de cima do carro. “Devia ter ido buscar a manta” E devia ter trazido algo para beber, a sandes de carne assada e folha de alumínio deu-me sede. Entro no fiera, fecho a porta e ouço o assobio do vento que quer entrar comigo.

Ligo a ignição e preparo-me, hoje é um dia totalmente novo e cheio de possibilidades.

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