semana 6

Cidade-mãe

Reconheço-lhe cantos, tenho memórias em vários deles, mas ela não é minha. Não me abraça como uma mãe. Lisboa é uma tia distante, mas simpática, das que dão prendas nos anos e no Natal.

Por mais viagens que faça ou venha a fazer, sei que nunca outro lugar vai despertar em mim exactamente os mesmos sentimentos que a minha cidade (ainda) desperta.
Mantenho com a minha cidade-natal uma espécie de relação extra-conjugal. Foi o meu primeiro amor e esse nunca se esquece. Pode não ser o que escolhemos – por uma razão ou outra – para casar, mas teremos sempre um enorme espaço para ele no nosso coração.

O encantamento por ele nasceu comigo e nunca me abandonará. Chega a ser reconfortante saber que, por mais coisas que me aconteçam por essa vida fora e por mais mudanças a que tenha que me submeter ou que se instalem sem pedir licença, pelo menos esta parte de mim nunca mudará.

Aqui há dias entendi finalmente a diferença entre os meus sentimentos por Lisboa e pelo Porto.
Vivendo em Lisboa há dez anos (feitos em Setembro passado), é natural que esta também se tenha tornado a minha casa. Tenho nela a minha casa de adulta, muitas das minhas pessoas, interesses e trabalho.

“Mas?…” – perguntei-me nesse dia, – E se as “tuas pessoas” se mudassem todas de Lisboa? Se desaparecessem magicamente para um outro lugar?”

Foi aí que percebi e foi a minha própria consciência que desvendou o mistério.
Se as “minhas pessoas” desaparecessem de Lisboa, eu sentiria que não estava cá a fazer nada. Sem elas, Lisboa não é a minha casa. Reconheço-lhe cantos, tenho memórias em vários deles, mas ela não é minha. Não me abraça como uma mãe. Lisboa é uma tia distante, mas simpática, das que dão prendas nos anos e no Natal.

Se as “minhas pessoas” desaparecessem no Porto, bem, estaria sozinha, mas estaria em casa. Aí é que reside a diferença. Ele abraçar-me-ia como mãe que é como quem diz “Calma, no final vai ficar tudo bem.”

Há um cantinho – literalmente um cantinho (na foto de destaque deste texto) – em especial onde sinto precisamente isso. Ele viu-me crescer e passar por diferentes fases da vida. Ele acolheu-me na minha solidão voluntária e viu-me escrever, quando ainda escrevia à mão, num caderno onde escrevi o meu primeiro (e único) livro completo até à data. Viu-me e ouviu-me a confidenciar segredos a amigas e a rir que nem uma perdida em tardes bem passadas e em boa companhia.

Como podia não me sentir em casa num lugar assim?

«O Porto é o lugar onde para mim começam as maravilhas e todas as angústias.»

Sophia de Mello Breyner

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One thought on “Cidade-mãe

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