semana 6

Quintal encantado

Era inverno. A chuva caia lá fora tão grossa que não tardava a transformar-se em pedra. Na marquise o som tornava-se impossível de suportar. Ainda assim ela não resistia em abrir a porta e ver lá foras as pedrinhas transformar-se em água no chão. A casa, agora silenciosa, estava fria e escura.

Era primavera. Rebentavam as primeiras flores brancas na árvore de chá. Lençóis cobriam hortências enquanto outros balançavam ao vendo no estendal. Bichinhos de conta enrolavam-se ao toque dela ao mesmo tempo que ao fundo se construía o abrigo. Ela queria ajudar. Desajudava, mas queria estar lá, deixar a sua impressão naquele local para sempre. E deixou.

Era Verão. Ela pedalava desenfreadamente aproveitando que o terreno inclinado dava uma ajuda. O sol incidia no metal do triciclo e o vermelho começava a ser laranja. Estacionava junto ao abrigo. Os brincos de princesa já se podiam fazer. Jarros e Hortências podiam-se colher. Rosas também mas com atenção aos espinhos. Cravos não. E as flores de secar também não, mas serviam de paredes de um labirinto imaginário cujo único requisito é que fosse percorrido a correr. Às vezes de olhos fechados. Muitas vezes a gritar. Então ela parava, tonta, abria os olhos e via as flores muito mais altas que ela, lá em cima. Pareciam olha-la. Apanhava bolinhas vermelhas. Eram das que não se podiam comer, nem sequer experimentar! Mas eram a comida ideal das bonecas que terminavam o seu banho no tanque. Cheirava a sabão azul e branco e a chá.

Era Outono. A gatinha tinha acabado de parir seis lindos gatinhos. Ela Já sabia onde eles estavam, debaixo da hortência da curva, frente ao abrigo, e mesmo em frente à árvore do chá. Sentava-se debaixo da árvore que sacudia as suas folhinhas de chá castanhas e enroladas. Ficava ali a ganhar a confiança dos gatinhos. De outra maneira a gata iria desconfiar. Assim eram eles que acabavam por sair e investiga-la. Ali as tardes transformavam-se em noites, agora tão longas, tão frias. No abrigo estava sempre mais quente. E pela janela do abrigo via as primeiras gotas de chuva cair, como também no seu rosto. Ali, tão escuro, tão só.

Era inverno. A chuva caia lá fora tão grossa que não tardava a transformar-se em pedra. Na marquise o som tornava-se impossível de suportar. Ainda assim ela não resistia em abrir a porta e ver lá foras as pedrinhas transformar-se em água no chão. A casa, agora silenciosa, estava fria e escura. As coisas que ficavam pareciam querer apagar-se como se tudo estivesse agora cinzento e a desvanecer numa velha fotografia a preto e branco. Ela sentou-se no parapeito da janela a olhar lá para fora. As ervas domaram as flores, a árvore do chá está despida de folhas como o varal está despido de trapos. Os muros outrora caiados ameaçavam ser tomados de verde e ao fundo o abrigo parecia pedir… Mas ela pegou na lata do chá que restou e fechou a porta atrás de si. E ela nunca mais regressou ao sítio onde foi mais feliz.

E ela era eu.

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