semana 6

Sob as estrelas

Estou contigo pelo terceiro Verão consecutivo, deitada sob as estrelas, naquele que se tornou talvez o meu lugar favorito. A ideia que tiveste, de pôr uma cama no terraço, para dormir ao luar nas noites mais amenas, anos antes de me encontrares, foi sem dúvida uma feliz coincidência, ouso mesmo dizer que um sonho tornado realidade…

Prendo o zipper do casaco polar e deixo-me estar quieta enquanto o desencravas.
Esboças um meio sorriso trocista, como se não estivesses já habituado ao facto de eu ter a habilidade sobrenatural de tornar complicadas as coisas mais simples.

Levanto-me em bicos dos pés para puxar o capuz do teu casaco e te beijar o nariz, em sinal de agradecimento. Fazes-me sinal que te siga para fora do quarto e eu obedeço. Não consigo evitar rir-me baixinho do meu reflexo no espelho – pareço uma criança com a roupa dos pais, a usar o teu pijama por cima do meu. Temos vestido várias camadas de roupa porque apesar de ser Agosto, à noite a temperatura desce bastante e temos planeada espécie de outdoor sleepover.

Esgueiramo-nos para as escadas silenciosamente, as nossas meias grossas de lã a abafar qualquer ruído. Com uma mão, tento arregaçar as calças demasiado compridas para não tropeçar; a outra mão está entrelaçada na tua, para que me guies até ao terraço. Está escuro dentro de casa, mas não queremos acender a luz para não acordar os teus pais. Já no exterior, a lua cheia ilumina tudo. Instalamo-nos confortavelmente lado a lado na cama, e suspiro perante o céu estrelado, o meu cenário favorito. Sopra um vento ligeiro, um “vento de mudança”, diria a minha avó, que faz as árvores cantarem à nossa volta. É um som tão delicioso quanto intimidador – a minha avó sempre me disse que tanto podia agradecer como temer quando os “ventos de mudança” sopram. Aconchego-me mais em ti e oiço-te resmungar, quando pouso as mãos frias no teu peito.

Recordo-me que, quando era pequena, todos os anos insistia com a minha família para que fossemos ao Planetário. A cada visita saía com a sensação de que seria para sempre pequena e ingénua, face à realidade esmagadora do universo. Na altura, vivíamos na cidade onde era quase impossível ver o céu estrelado. Quando mudámos para uma casa nos arredores da cidade comprei um telescópio. Nunca lhe dei grande uso porque a urbanização onde vivíamos depressa ganhou demasiadas casas e luminosidade artificial. Talvez como prémio de consolação, comprei estrelas de plástico de vários tamanhos e feitios … daquelas que brilham no escuro; colei-as no tecto do meu quarto. Com um pouco de imaginação, podia deitar-me todos os dias a pensar que elas iluminariam os meus sonhos. Quando te conheci, meu amor, foi com algum constrangimento que percebi que nunca viria a ter um lugar tão maravilhoso para ver as estrelas como ao teu lado, na tua casa, neste terraço suspenso nas nuvens.

Estou contigo pelo terceiro Verão consecutivo, deitada sob as estrelas, naquele que se tornou talvez o meu lugar favorito. A ideia que tiveste, de pôr uma cama no terraço, para dormir ao luar nas noites mais amenas, anos antes de me encontrares, foi sem dúvida uma feliz coincidência, ouso mesmo dizer que um sonho tornado realidade…

Não posso imaginar melhor lugar para descansar o corpo e a alma, depois de um ano lectivo complicado, horário e ritmo de vida poucos saudáveis, do que aqui ao teu lado. Não posso imaginar sensação melhor do que sentir a tua respiração no meu pescoço, o teu corpo quente contra o meu e o conforto da roupa macia e larga, enquanto leio histórias nas estrelas. Depressa nos perdemos nas horas, assim como na contagem de estrelas cadentes. Pedi, perante todas elas, o mesmo desejo: que internalizem este momento. Sinto as minhas pálpebras a pesarem, a respiração ficar mais profunda. Sinto-me tão segura, qualquer jovem ave no conforto do ninho, esquecida ou alheia dos perigos lá fora, das divergências que a esperam. A canção do vento já não passa de um murmúrio. Já dormes? Deixa-me então adormecer também, com a certeza de que vou acordar amanhã, nos teus braços. O meu cabelo estará num desalinho, as pestanas molhadas pelo orvalho, quando me levares ao colo para dentro de casa pela madrugada, porque temes que o frio da manhã seque os meus lábios de seda.

Estejam os “ventos de mudança” sempre do meu lado… e vamos sempre voltar a adormecer juntos sob as estrelas.

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