semana 7

Frio

Na minha frieza, persiste esta ideia de que se nunca obtive um carinho também não o terei de demonstrar. A falsidade nunca me serviu. Ficava-me apertada como umas calças que vestia quando tinha doze anos.

A minha avó morreu. Sem qualquer lágrima, encosto-me á porta da capela e espero que tudo se movimente rapidamente.
Não aguento estar aqui. Tudo é preto, tudo é escuro. O frio invadiu a capela e é insuportável ver as minhas mãos tornarem-se vermelhas e rijas do frio.
Olho a minha mãe. Pálida, muito magra, já sem se conter, desfaz-se ali. No banco desconfortável onde à anos me sentei para a partida de um familiar que não era meu.
Tenho o carro estacionado a poucos metros. Olho-o e penso que poderia sair dali. Poderia até não voltar para casa esta noite.
Ao contrário do que sempre ouvi da minha mãe, ainda tenho amigos. Ainda tenho uma cama fora de minha casa, onde possa passar a noite.

Desvio o olhar e de uma forma ou de outra, saio do meu corpo e olho-me como se fosse outra pessoa. Como se não me conhecesse.
Apercebo-me do quanto sou fria. Do quanto a vida me mostrou que não tenho tempo para floreados, para choros desnecessários.

Os atentados fazem-me chorar. O medo faz-me chorar. Esta ideia de que a minha vida estagnou e passo os dias dentro de casa a passear o meu pijama, faz-me chorar. Mas a morte de alguém não. Talvez porque sinto que ninguém vá chorar a minha. Tenho intenções de morrer bem tarde. De alcançar todos os lugares a que, desde criança, me propôs a explorar.
Por isso chorar este alguém, velho, que parte, para mim deixou de fazer sentido.

Egoísta, prefiro chorar a minha insignificância. Ou a falta de algo, de momentos reveladores que me preencham.
Se me perguntarem o que é preciso para me preencher, nem eu sei.
Já perdi tanto que por um lado seja capaz de pegar na mais pequena coisa e ela me fazer feliz.

As pessoas deixam de me dizer alguma coisa, quando não sabem dar valor a quem as ajuda. Quando olham os outros e não reconhecem o constante sacrifício que fazemos por elas. Quando olham outro alguém e ficam absorvidas pela mentira ou pelo desejo do que não é real.
A minha avó à muito que deixou de reconhecer quem a ajuda. Deixou de se importar com os gestos da minha mãe, com as horas que passei em hospitais, sem me pronunciar, mesmo quando ela pensava naqueles que não a visitavam.
Na minha frieza, persiste esta ideia de que se nunca obtive um carinho também não o terei de demonstrar. A falsidade nunca me serviu. Ficava-me apertada como umas calças que vestia quando tinha doze anos. Ficava-me pequena como uma camisola que deveria ser vestida a um bebé de alguns meses e não a uma criança de dez anos.

Chorar para mim, hoje, não é uma opção. A vida continua em todos os sentidos. Tenho a certeza que amanhã os meus vizinhos, que dizem ser meus familiares, já terão esquecido o funeral de hoje. Mas sei que aqui em casa, o corpo da minha mãe irá torna-se moribundo. O meu irmão acabará por perceber que não vale a pena contar com o meu pai e que chamar a atenção não o levará a lado nenhum. Que a única pessoa com quem poderá contar serei eu. Acabaremos por nos mudar. Acabarei por o levar comigo e dar-lhe tudo, como se fosse um filho para mim.

Hoje, enquanto o frio me atravessa o casaco de Inverno, no dia em que a minha avó morreu, sei que a única pessoa que sou capaz de amar é o meu irmão. Ainda é com bastante nitidez que recordo o dia em que chorei por ele, quando o meu pai, pela primeira vez, lhe bateu.

Escrito enquanto ouvia: Goldmund – Sometimes

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