semana 7

Sou da Serra

No dia que fiz 17 anos parti da Serra, para ir fazer o curso de maquinista. Na mala de cartão levei as minhas roupas, uma foto de família, pão e queijo da serra para a viagem. Deixei para trás mãe, pai e 8 irmãos.

O meu nome é Zé, nasci numa aldeia perto da Serra, era Janeiro e fazia frio, aquele frio cortante da Serra. A minha mãe de seu nome Maria pariu-me em casa, eu era o quinto filho daquela mãe parideira e nascer em casa com a ajuda das vizinhas era o normal.

Cresci com frio, numa casa de pedra numa aldeia perdida na Serra, quinto filho de uma equipa de nove. Passei fome, andei descalço, perdi muitas horas com o rebanho no cume da Serra, perdi outras quantas horas na Escola Primária da aldeia onde aprendi a juntar as letras em palavras e a contar as cabeças do rebanho.

Os dias, os invernos e os anos assim passaram todos iguais.

Tinha 16 anos quando saí pela primeira vez desta Serra. Apanhei a locomotiva na estação dos caminhos-de-ferro, desci até à cidade e apaixonei-me por aquela máquina infernal, pelos vagões, pelos carris, pela paisagem e pela liberdade de poder descer da Serra sempre que quisesse, sem ter de esperar mais 16 anos.

E foi nessa viagem que decidi.

Cheguei a casa e à hora da janta anunciei: Pai, mãe, meus irmãos, vou deixar a aldeia, vou deixar o rebanho e vou ser maquinista! Disse-o de cabeça baixa e sem os conseguir encarar.

Um silêncio sepulcral invadiu a divisão. Desconfiança, dúvida, medo.

Eu era o primeiro da família a tomar essa decisão, a ter a coragem, a ir embora, a deixar a aldeia, a serra, o rebanho, a ordenha, a lavra.

Levantei a cabeça, e grossas lágrimas escorriam do rosto cansado da minha mãe. Meu pai na sua austeridade mastigava o jantar, a sua expressão mantinha-se inalterada, meus irmãos não se mexiam.

Eu estava mais gelado do que nunca.

Como um trovão, a sua voz inundou a divisão:

– Zé, meu filho, se achas que é esse o teu caminho, que a locomotiva é a tua casa, vai!

Com um nó na garganta, só consegui articular um: sim Pai!

Foi a vez do choro da mãe invadir a divisão enquanto se levantava da mesa, abriu a porta da rua e saiu para a noite fria de outono.

Pedi licença ao meu pai para sair da mesa, sei como ele é exigente com a nossa presença à mesa das refeições.

Quando sai para o exterior descobri o vulto da minha mãe ao fundo do quintal, desci a ladeira.

Como gosto de si minha mãe.

Abracei-a, beijei-lhe o rosto e tranquilizei-a o melhor que pude.

No dia que fiz 17 anos parti da Serra, para ir fazer o curso de maquinista. Na mala de cartão levei as minhas roupas, uma foto de família, pão e queijo da serra para a viagem. Deixei para trás mãe, pai e 8 irmãos.

Hoje 20 anos depois sou o maquinista da locomotiva que me levou da Serra e esta locomotiva todos as quinzenas me devolve à serra, ao frio, à nossa casa da aldeia, aos braços da minha mãe, aos silêncios do meu pai, às risadas dos meus irmãos e da sobrinhagem que por lá cresce.

Casei com ela, a locomotiva, com o seu ronco, 20 anos pelos socalcos das montagens deste nosso centro, umas quantas idas ao Entroncamento, outras à Campanhã e outras ao Rossio. Mas não consigo estar muito tempo sem lá ir, sem sentir o frio, o cheiro e o amor daquela Serra, daquela casa e daquela gente, a minha gente.

Sou da Serra

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