semana 7

Uma história inacabada, pela meia-noite contada

Eu sempre achei que tu não me completavas, aliás, assustava-me e maravilhava-me a forma como quebravas com o meu puzzle, com a minha rotina, que me tiravas da minha zona de conforto…. Cresci contigo e acredito que fizeste emergir o melhor de mim, e que te dei de boa vontade essa parcela, porque tinha-te como o seu melhor guardião. (…) Durante os últimos tempos acreditei que ia chegar o dia em que interromperias o caminho, me agarrarias pelos ombros e me falarias sobre uma urgência aflitiva, que não seria mais do que quereres tomar o meu rosto nas tuas mãos e pedir-me para voltarmos atrás no tempo.

Já passa da meia-noite.

Hoje prometi a mim mesma que não ia voltar a pegar no caderno para escrever para ti, depois da meia-noite … que ia (tentar, pelo menos) dar ao meu coração a paz que merece. É pouco depois de o som do bater das doze badaladas me ressoar nas veias, que as minhas mãos procuram involuntariamente o telefone. O meu coração bate descompassadamente quando verifico que não ligaste, que não vou ouvir a tua voz do outro lado a desejar-me a boa noite ou que não estarei encostada ao teu peito quando proferires as palavras. Já viste a ironia? Eu que nunca olhava a horas, como bem sabes agora vivo com um relógio incrustado na pele, cujos ponteiros perfuram, como que para ganhar espaço para se mover, de forma lenta e dolorosa. Podes rir-te de mim. Ou podes olhar-me com os olhos tristes, diria mesmo, compadecidos, com que me tens olhado ultimamente mas isso seria ainda mais insuportável. Não me admira que o faças, já que foram incontáveis as vezes que, nos últimos tempos, deixei o orgulho escapar-me por entre os dedos e me desfiz em lágrimas à tua frente; ou que estendi os braços, qual criança desamparada, para que me abraçasses, depois de me teres passado a cumprimentar com dois beijos nas bochechas ainda frias, pela manhã… Sinto-me sufocada pelas palavras que ficaram por te dizer, mas acho que, mais uma vez em contras-senso comigo mesma – ou com o que costumava ser – desta vez não terei forma de me exprimir. Nunca conseguirei fazer-te chegar a dor que sinto, não porque decidiste afastar-me da tua vida, mas pela desilusão perante a frieza inesperada com que o fizeste… disseste as palavras que me afastariam, como se te limitasses a tirar uma farpa do coração, esquecendo-te que com esse simples acto consumias metade do meu.

Se fechar os olhos ainda sinto o teu perfume na camisola larga que me vestiste para que não arrefecer enquanto jantávamos na varanda. Ensinaste-me a apreciar muito algumas pequenas coisas, sabes? Como jantar contigo pizza sentada no chão da varanda, com as pernas pendentes, fora do gradeamento, a ouvir os sons da cidade. Tudo ao teu lado ganhava uma côr e um significado diferente e fazias-me sempre sentir, ainda que mediante simples gestos, que o dia seguinte não seria igual aos outros. O que é que eu te ensinei?

Se fechar os olhos com mais força e me deixar levar pelas memórias, estamos outra vez naquela noite, numa das minhas primeiras saídas de faculdade, em que reparaste que esfregava as mãos para as aquecer e por isso me deste as tuas luvas de lã. Lembro-me de refilar que tal cortesia não te trazia justiça nenhuma e acabei por aceitar pôr só uma das luvas onde, convenhamos caberiam as minhas duas mãos. Recordo-me de me olhares, com os olhos brilhantes (hoje julgo que das bebidas em excesso daquela noite) com uma expressão que eu interpretei como o primeiro olhar genuíno de alguém que se importava, que queria o melhor para mim. Sem mais cerimónias, agarraste a minha mão despida, com a mão, igualmente livre. Sobressaltei-me e tentei, com cuidado, desentrelaçar os meus dedos dos teus. “Faz-te assim tanta confusão andar de mão dada comigo?” – disseste-me. Lembras-te? É assustador pensar que essas foram as exactas palavras que saíram dos meus lábios quando passeamos juntos pela última vez. Não tinha intenção nem pensei sequer na nossa primeira noite juntos quando te citei; as palavras saíram-me dos lábios como uma premonição, porque me lembrei que já não me seguravas a mão quando caminhávamos na rua; há quanto tempo, mesmo?

Eu sempre achei que tu não me completavas, aliás, assustava-me e maravilhava-me a forma como quebravas com o meu puzzle, com a minha rotina, que me tiravas da minha zona de conforto…. Cresci contigo e acredito que fizeste emergir o melhor de mim, e que te dei de boa vontade essa parcela, porque tinha-te como o seu melhor guardião. Lembro-te de te dizer ao principio que nos achava demasiado diferenças mas depressa percebi que eram as nossas assimetrias que faziam de nós o que éramos. O que eu tenho desejado, com todas as minhas forças, que continuássemos a ser. Merda, como é que tu achaste que, depois de anos a falarmos sobre tudo, devias adiar uma conversa que me poderia fazer-me voltar a ser para ti aquilo que parecias reconhecer no meu rosto, quando o olhaste, tantos dias e tantas noites? Fazer-te sentir que ainda me desejavas da mesma maneira? Se tínhamos as nossas promessas, tu quebraste com a mais importante. Tiraste-me o chão por inteiro, sem que tivesse como aviso o som do lascar de um azulejo. Deixaste-me sem poiso, desprotegida, sem saber onde parar para recolher as asas …

Durante os últimos tempos acreditei que ia chegar o dia em que interromperias o  caminho, me agarrarias pelos ombros e me falarias sobre uma urgência aflitiva, que não seria mais do que quereres tomar o meu rosto nas tuas mãos e pedir-me para voltarmos atrás no tempo.

Pensar que na minha ingenuidade sempre achei que conseguiríamos continuar a ser os melhores amigos, sucedesse o que sucedesse… mas sei agora que queria isso da pessoa que conheci há três anos atrás, da qual já tenho tantas saudades!… Alguém te devia ter dito que é natural que nunca me tenhas tido perfeita porque ninguém o é. Pelo menos, eu sempre reconheci e fui sincera quanto às minhas imperfeições. Inconscientemente sentia que, assim como tu me tinhas cativado, também eu me tinha tornado insubstituível; que, enquanto eu precisaria sempre de ti para que me fizesses sentir que amanhã não ia ser só mais um dia – simplesmente pelo facto de que estarias ao meu lado – tu precisarias da minha confusão na tua vida, do meu ritmo acelerado, da minha boa vontade em fazer todos os dias chegar à nossa vida algo de diferente … será que estava redondamente enganada e que só me resta desejar-te sorte a encontrar a pessoa que te preencha o espaço que eu não consegui selar?

Pergunto-me por quanto tempo te terás questionado se valeria a pena continuar a tentar fixar as minhas falhas. Espero que tenhas entendido que eu teria agradecido por cada pequena peça que quisesses pôr no devido lugar ou aperfeiçoar, desde que não me tentasses mudar demasiado. Neste ponto, talvez tenha sido eu a primeira errar, ao pedir-te sempre mais do que te era natural dar. Ao pedir-te todas as certezas em relação a mim, apesar de nenhum de nós as ter perante tudo o resto. Sempre me acusaste de querer tudo, de não me contentar com o que tenho… agora já entendo o quanto posso perder ao desejar tudo. Reconheço que a culpa de todos os altos e baixos da nossa relação também foi minha, mas também reconheço que lutei por nós com quantas forças tinha. E no final, fui quem se tornou abdicável, fui eu que deixei de ser quem tu querias abraçar todos os dias.

Fiz o luto por mim, sabes, quando tentei enterrar os meus sonhos contigo… mas até hoje ainda não consegui fazer o mesmo luto por nós, pôr um ponto final numa história que ainda sinto que está inacabada. Por muitos dias senti que já não me importaria com qualquer conquista pessoal a que tu não pudesses assistir, que não era merecedora fosse do que fosse, que o meu reflexo no espelho não era mais do que uma mancha ténue daquilo que eu era quando te conheci; uma imagem sem brilho, um rosto sem rubor nas faces, sem claridade no olhar. Não, inicialmente, por mais que tentasse, não conseguia pôr as culpas em ti que, no teu egoísmo, achaste que seria mais fácil abdicar do que tinhas de mim porque não podias continuar a tentar condicionar às tuas regras e valores um coração “livre”. Eu percebi que não podia ter-te nem era justo querer ter-te como eu queria. Entendi que não podia esperar que me comprasses flores, que reparasses que estava a usar um vestido novo, que reconhecesses que estava linda sempre me arranjava para ti, se já gostavas de mim despenteada, enfiada num qualquer teu pijama largo! Eu percebi que não podia ter-te nem era justo querer ter-te como eu queria … mas foste tu quem acabou por não aguentar não me ter à sua maneira.

Sabes, o que me custa mais, agora que não te tenho comigo, são as horas, o tempo que passa demasiado devagar e no qual pareço estagnada. Chegaste quando menos esperava, partiste quando menos queria e conheceste-me na melhor fase da minha vida, quando eu era um furacão de energia, uma fonte inesgotável de histórias e descobertas!… Nem quero pensar que é possível que a minha presença apenas encha um pequeno capítulo da tua história, enquanto a tua parece impregnar cada página do meu livro. Odeio admitir que tenho medo, muito medo, que me esqueças, que esqueças tudo o que passámos juntos. Temo que o tempo nunca mais volte a avançar para mim como para ti e que não venha a ter tempo para deixar a minha marca em mais ninguém. Não sei o me fazer dar tanto outra vez; quem vai ser suficiente para me preencher outra vez! Não sei alguém me vai alguma vez despertar a vontade a vontade de amar com a intensidade com que te amei,… de colher os meus receios e desilusões e me devolver confiança e um “estarei aqui para ti, sempre”.

Já passa da meia-noite. Não consigo dormir.

Hoje prometi que ia deixar de me culpabilizar porque, no final, quem errou foste tu e, agora entendo, não vamos voltar atrás no tempo e, como tal, nunca vamos voltar a ser o que éramos. Tenho de deixar de sentir o teu calor na pele, os teus lábios nos meus,…porque nem a tua presença nem os teus beijos vão voltar a significar o mesmo, não é? Dói muito reconhecer que quebraste irremediavelmente com o que tínhamos e que por isso não vamos poder reconstruir o que erguemos com tanto cuidado. Julgo que nunca o nosso amor e, acima de tudo, a nossa amizade vão voltar a ter a mesma solidez, a mesma sinceridade, a mesma genuinidade… Se voltássemos a tentar estar juntos da mesma forma estaríamos a reconstruir o nosso castelo sobre varas de bambu que, sem quebrar, vergariam mais a cada pedra que lhe colocássemos… porque o tempo não volta atrás, uma história como a nossa não pode (re)começar das cinzas e, infelizmente, as memórias menos felizes não podem ser colhidas e deitadas fora no caminho para casa. Acredita que, se eu pudesse…

Anúncios
Standard

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s