Voltar

Só o quero reencontrar. Trazer-me de volta. Esquecer aquele campo. Esquecer aqueles mortos, espalhados pelo chão, engolidos pela terra, desfeitos em sangue.

Ele não me reconhecerá. Não saberá quem eu sou. Tão cego pelo dinheiro que não consegue alcançar, desde que eu morri.

Desde o dia em que ele me denunciou. O mesmo dia em que o meu rosto se tornou desfigurado, em que o meu corpo se tornou magro. O mesmo dia em que ser Judeu deixou de ser uma banalidade e acabamos todos mortos num campo, onde não vemos ninguém, senão os nossos próprios ossos a chuparem a pele que temos.
Olho-me nos espelhos dos destroços, nos espelhos de uma casa que não é a minha e me dizem ser um refúgio.

E o que vejo? Nada. Não sou eu. É um fantasma de cabelo queimado. O rosto negro de uma reconstituição que nunca me trará de volta.

Quero arrancar esta feições. Quero vê-lo.
Procuro pela noite, sobre as luzes espaçadas das ruas vazias, na esperança que quando os nossos olhares se cruzarem ele me reconheça. Fique feliz. Que a culpa também o detenha, mas que corra para mim.

Esta estranha que me acolhe, não sabe dos meus planos. Esta estranha que me acolhe, não me deixa perdoar. Não me deixa seguir o caminho aberto pelo passado.

Só o quero reencontrar. Trazer-me de volta. Esquecer aquele campo. Esquecer aqueles mortos, espalhados pelo chão, engolidos pela terra, desfeitos em sangue.

Enquanto me olho no espelho que preenche o roupeiro, de onde mais tarde recolherei uma roupa, que instantaneamente o traga de volta para mim, percorro com as mãos, estes fios de cabelo cinzento e seco. Este cabelo que parece querer cair a qualquer momento.

Voltarei a vê-lo. Acabarei por ser usada para finalmente ele sair deste buraco onde se encontra, desde o dia em que me fecharam no campo.
E aos poucos, enquanto me veste as roupas dela, me pinta o cabelo da mesma cor, me preenche os lábios com o mesmo batom vermelho, acabarei por voltar a ser eu.
Encontrarei o caminho de volta para casa, em frente daqueles que me conheceram e me tomaram como perdida para sempre.
Deixarei para trás a cegueira que o medo me ofereceu.
Caminharei pela porta que dá para o exterior, sem ele. Mas comigo.

Berlim Pós – Holocausto.


Nelly (interpretado por Nina Hoss) em Phoenix (2014) de Christian Petzold.

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