(Re)Começar

Sim, porque eu deixei de escrever em papel. A caneta começou a tocar o papel com tanta força que perfurava tudo o que eu escrevia. Era impossível ler. Reler.

Poderia recomeçar por visitar as minhas memórias. Escrevê-las mentalmente e mais tarde deixá-las caídas nos pensamentos daqueles que ainda conservassem uma saudade minha.

Pensei em matar-me.
Começar de novo. Num corpo de fantasma, com uma garrafa de vodka agarrada à mão direita, deambulava pelos lugares onde tenho sempre medo de ir. Assustaria tudo e todos e teria uma nova respiração.

Uma que não deixasse marca nas janelas que sentem o frio do exterior e o quente do interior.

Sem conseguir ver com clareza recomeçaria aquilo que não tenho enquanto estou viva.

O sentido daquilo que escrevo começa a desaparecer. Queimei as fotografias, num pequeno amontoado de ramos e folhas secas, perto das laranjas, que podres foram ficando no chão.

Podia fazer listas que ninguém conseguiria ler, com uma mão tão invisível quanto o tempo que passaria por mim.

Que prazer isso iria dar à minha família?

Bem, também poderiam recomeçar de novo. A minha mãe jamais teria de começar uma discussão na cozinha, que se estenderia para a sala, onde eu não lhe responderia, enquanto fixava os olhos na televisão, fingindo não ouvir. Mas guardando tudo, para mais tarde, quando ela precisasse da minha mão para se segurar, eu a deixasse cair.

O meu pai, deixaria de me culpar pelos problemas que eu nem conheço. Ele poderia começar um capítulo novo. Um no qual deixaria de jantar, com os olhos pregados no prato, sem sorrir mesmo quando meu irmão contasse uma aventura caricata.

O meu irmão choraria. Perguntaria todos os dias por mim. Só ele não conseguiria recomeçar.

E eu?

Eu continuaria a tentar tocar em tudo o que não consegui enquanto respirei num lugar que não era o meu. Num lugar que eu não escolhi para mim. Um lugar onde eu escrevia tão freneticamente que os dedos ficavam vermelhos e pequenas bolhas se formavam da pressão que eu fazia ao carregar nas teclas.

Sim, porque eu deixei de escrever em papel. A caneta começou a tocar o papel com tanta força que perfurava tudo o que eu escrevia. Era impossível ler. Reler.

Poderia recomeçar por visitar as minhas memórias. Escrevê-las mentalmente e mais tarde deixá-las caídas nos pensamentos daqueles que ainda conservassem uma saudade minha.

Se eu pudesse recomeçar matava-me. Faria uma existência fora daquilo que eu fui. Apagaria com um pequeno frasco de comprimidos, que corroesse o meu estômago. Não deixaria ninguém ver-me para que na tentativa da salvação, alguém arruinasse os meus sonhos.

Podia começar na ponta do nascer do sol e acabar no lugar do pôr do sol. Todos os dias. Uma existência inexistente.

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