Janeiro 2016

“Welcome to Sky Valley”

Fitou a placa de metal onde se lia “Welcome to Sky Valley” que guardava religiosamente na parede em frente à sua cama há pouco mais de dez anos, resultado de uma noite memorável onde Tyler e o seu amigo Jeremy a arrancaram da auto-estrada por onde conduziam sem destino o velho Pontiac Firebird do pai de Jeremy. […]
Há anos que não sabia nada de Jeremy. Havia um número de telefone antigo escrito num pedaço de papel velho coberto de pó na secretária inutilizada do seu quarto.

Tyler tinha acordado tarde, como já era hábito. Acordou, mais uma vez, sem qualquer memória da noite anterior ou de qualquer razão para sair da cama.
A casa estava silenciosa, não exibindo qualquer evidência sonora de outras existências para além da sua. Por breves instantes, sentiu um misto de gratidão e de alívio pelo facto da mãe trabalhar. Sabia que já nem devia lá viver, com a idade que tinha, mas naquele buraco de terra esquecida a que chamavam cidade, não pareciam existir grandes alternativas.

Deixou-se ainda ficar na cama por mais algum tempo até que a fome o venceu. Todos os dias a luta era a mesma e todos os dias ela vencia. Apesar disso, estava cada vez mais magro.
Fitou a placa de metal onde se lia “Welcome to Sky Valley” que guardava religiosamente na parede em frente à sua cama há pouco mais de dez anos, resultado de uma noite memorável onde Tyler e o seu amigo Jeremy a arrancaram da auto-estrada por onde conduziam sem destino o velho Pontiac Firebird do pai de Jeremy.

Pensando bem, essa fora a última vez em que se sentira verdadeiramente feliz e até – ousava pensar – um pouco livre.
Há anos que não sabia nada de Jeremy. Havia um número de telefone antigo escrito num pedaço de papel velho, coberto de pó, na secretária inutilizada do seu quarto.
Sentiu-se imediatamente deprimido com esse pensamento. Não gostava de pensar, muito menos de sentir.
Felizmente, isso tinha solução, embora tudo o resto na sua vida parecesse não ter.

Preparou cuidadosamente a dose matinal da única substância que parecia ajudar a tornar a vida mais suportável e deixou-a penetrar numa veia do pé direito, ardente como só ela. Após horas, que a Tyler pareceram cinco minutos (não que ele estivesse lúcido o suficiente para os contar), saiu da cave onde se situava o seu quarto e subiu até à cozinha onde a mãe todos os dias lhe deixava o jornal com várias ofertas de emprego assinaladas por um circulo que desenhara a caneta vermelha.

Serviu-se de uma generosa taça de Berry Berry Kix, cheirou o interior da garrafa de leite e inundou as centenas de bolinhas coloridas de branco.

Kid Tested. Mother Approved”, lia-se na caixa.

Tyler revirou os olhos àquilo quando se lembrou da primeira vez que lera aquela frase há tantos anos atrás, quando não passava de um miúdo idiota. Pelos vistos, para a mãe ainda o era.

Olhou de relance para o jornal pintalgado de vermelho e sentiu novamente o peso da culpa e da responsabilidade que a dose matinal tentara afastar. Sabia que estava a voltar a si mesmo quando os sentimentos voltavam também. Como odiava sentir.
Todos os dias era a mesma coisa.

Pegou no jornal, mais por obrigação do que por intenção de mudar o que quer que fosse naquele mesmo dia e fez o seu melhor esforço por ignorar os círculos vermelhos, tentando focar-se nas notícias.

Mais ou menos a meio da edição daquele dia, encontra-se uma espécie de memorial de um miúdo qualquer que se tinha suicidado há anos atrás. Dez anos, fazia naquele dia aparentemente. Estava prestes a mudar de página, mas assim que olhou para o rosto do rapaz numa cópia da notícia original que dava como certa a sua morte, deixou cair a colher na taça de Sprinkle Spangles – agora quase vazia – salpicando leite um pouco para todo o lado, levantou-se a correr e fechou-se na casa de banho onde vomitou todas as estrelas do pequeno-almoço e tudo o resto que não tinha no estômago.

O jornal permaneceu aberto naquela página.

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Afinal, nem todos os dias eram iguais. Houve um, há dez anos atrás em que Jeremy tirou a sua própria vida, tão pouco tempo depois de terem voltado as costas um ao outro, já nem se lembrava porquê. Tinham-se passado dez anos sem que tivesse dado conta disso. Jeremy estava morto há dez anos e nem sabia… Como era possível?…

Num acto de desespero e de súbita consciência desperta pelo murro no estômago que levara ao ler aquela notícia, serviu-se das poucas forças que tinha e desceu novamente à cave, onde fez as malas com a pouca roupa que tinha. Nada mais.

Esperou que a mãe chegasse a casa, o jornal ainda aberto na mesa naquela mesma página, da qual não tinha voltado sequer a chegar perto, e anunciou:

– Mãe, estou pronto. Desculpa…

As lágrimas guardadas há tantos anos começaram a jorrar como se fosse novamente uma criança. Não chorava desde que o pai os tinha abandonado uma noite, quando tinha apenas nove anos.

A mãe abraçou-o como já não a deixava fazer há outros tantos anos e prometeu-lhe que tudo ficaria bem.
Entraram no carro rumo à clínica de reabilitação, desta vez por vontade de Tyler. Desta vez, era ele a querer curar-se.
Já chegava disto, de tudo.

Não sabia o que o futuro lhe reservava, mas o que quer que fosse, sabia que teria que recomeçar. Queria recomeçar.

Nota: a notícia apresentada em forma de imagem neste texto é real e aconteceu em 1992. O acontecimento que envolveu Jeremy Wade Delle inspirou a música “Jeremy” dos Pearl Jam.

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2 thoughts on ““Welcome to Sky Valley”

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