Janeiro 2016

O Recomeço

E naquela manhã, no trajecto de todos os dias, recomecei uma vez mais e da forma mais inesperada – vi o que estava para além e o início de mim deixou de ser apenas o final em ti.

Ao contrário de outras vezes, naquela manhã não sabia que precisava de um recomeço. Entre o cachecol desalinhado, o aperto das horas e a rotina de segunda-feira, olhar a vida com outros olhos, que não através dos teus, não me passava pela cabeça. Não naquela manhã, nem em nenhuma das outras que se avizinhavam.

Apanhada de surpresa e ainda a digerir o sucedido, acedo ao inevitável exercício de contar os meus recomeços. Subjugada, aceito a essencialidade que o encerramento de ciclos tem tido na minha vida. Foram já vários, penso.

A capacidade de recomeçar surge, assim, na minha vivência (e creio que na de quase todos nós), da necessidade de sobrevivência ao dia-a-dia, da inevitabilidade de afagar as amarguras da vida (esse conceito metafísico) e da necessidade intrínseca que todos temos, mesmo que escondida, de nos abrirmos a novos rumos.

O passar dos anos ensinou-me que, por vezes, o mais difícil não é recomeçar, porque sentimos que isso é inevitável. O difícil é percebermos (e aceitarmos) que chegou a hora de mais um recomeço.

A verdade é que nem todos os recomeços são Passagens de Ano na nossa vida, em que enleados por esse algoritmo socialmente forçado, embebido de espírito pós-natalício e assombrados pela proximidade do 01/01, damos por nós a cumprir a obrigação de pensar no ano transato e a ambicionar algo novo. Se me permitem a ousadia, atrevo-me a escrever que estes “recomeços” não são verdadeiros recomeços.

Recomeçar, na sua essência, é para mim algo mais profundo, que está para além de listas, de metas ou resultados. Recomeçar é não renegar o que se foi em prol do que se será, mas aceitá-lo e torna-lo parte do que somos hoje para podermos enfrentar o amanhã. É estar aberto a novos horizontes, àquilo que a vida (lato senso, lá está) tem para nos oferecer. Às vezes, recomeçar passa apenas por não seguir pela avenida principal e cortar caminho pelas ruelas. É conseguir ter uma nova perspetiva, de nós próprios e do que nos rodeia. É reconhecermos o que nos faz mal, mesmo quando todo o nosso corpo parece desejá-lo, é sabermos colocar pontos finais, mesmo quando as frases ainda estão a meio. É abrirmos a mente, o espírito, o coração.

Este processo não é fácil e é um caminho repleto de pequenas conquistas: aceitar que estamos a recomeçar, aos poucos, um dia de cada vez, até estarmos confortáveis com esse recomeço.

Nem todos os recomeços são bons, fáceis ou sequer desejados. Mas todos os recomeços são necessários.

E depois há dias assim, cheios de segundas intenções, em que a vida fica de “pernas para o ar”. Bastou o despertador não tocar à hora do costume, um tropeçar inesperado na calçada portuguesa e um estranho que por ali passava.

E naquela manhã, no trajecto de todos os dias, recomecei uma vez mais e da forma mais inesperada – vi o que estava para além e o início de mim deixou de ser apenas o final em ti.

E se este não foi o meu primeiro recomeço – nem será, por certo, o último – foi talvez aquele de que eu mais precisava. Aquele que me devolveu a mim mesma e à minha essência. Ali, sem contar, numa das minhas ruas de todos os dias.

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