Fevereiro 2016

Envelopes de São Valentim

Deambulou pela casa e voltou a reparar nas cartas.

Começavam a intrigá-la. Todos aqueles envelopes. Todos vindos da mesma pessoa. Todos dirigidos a ele.

Abriu a caixa do correio, antes de subir as escadas para o apartamento do namorado. Ele tinha-lhe pedido expressamente que abrisse a caixa de correio para ver se haveria algo, e que levasse para cima os envelopes e os deixasse na mesa da sala. Ele esperava uma carta importante. Um seguro qualquer para pagar.

Munida do duplicado das chaves que ele lhe tinha dado quando tinham feito um ano de namoro; deixou cair os sacos de compras, que traziam os preparativos para uma noite de São Valentim memorável. Abriu a caixa de correio e, de facto, a mesma estava cheia. Tirou as cartas avolumadas e deixou-as cair para um saco ao acaso.

Subiu as escadas que davam até aos elevadores. Entrou, marcou o segundo andar e deixou-se levar na expectativa feliz de que esta seria uma noite que ele jamais poderia esquecer. Ela iria conseguir que ele não mais relembrasse o que tinha acontecido há dias atrás, quando a relação parecia estar no ponto máximo de ruptura.

Abriu a porta do apartamento, deixou cair os sacos mais à frente na sala e voltou para fechar a porta.

Entusiasmada, começou a retirar tudo o que tinha comprado. Iria encher a casa de tudo o que de mais romântico tinha encontrado na loja, que lhe tinha chamado a atenção na zona histórica da cidade. A montra repleta de corações vermelhos e rosa, peluches amorosos e a palavra “amo-te” a gritar de cada recanto do vidro, que marcava a distância entre ela e todo aquele consumismo desnecessário, mas que para ela, há dois dias atrás fazia todo o sentido.

Iria recuperar o tempo perdido. Iria poder esquecer as discussões e as dúvidas.

Aos poucos foi retirando peça por peça dos sacos, como se de um grande puzzle se tratasse. Iria começar pela sala. Enchê-la de velas, de rosas. As pétalas pela cama. O vinho na mesa de jantar. Os pratos coloridos de corações de papel.

Quando tudo estava pronto, reparou que as cartas ainda continuavam em um dos sacos, quando se preparava para os arrumar. Retirou-as.

Olhou-as e foi lendo o remetente na primeira, na segunda, na terceira, na quarta. Novamente, no quinto envelope, o remetente continuava a ser o mesmo. O destinatário, sempre o nome do namorado.

Estranhou.

Olhou o relógio, marcava três horas. Mais três e ele estaria em casa, vindo do trabalho.

O calendário marcava o dia 14 de Fevereiro e ela espera que ele não se tivesse esquecido de lhe comprar uma prenda. Ela que já tanto lhe tinha pedido aquele jogo. Um que ela prometia que poderiam jogar juntos. Por vezes, parecia que nada tinham em comum. Talvez por isso ele procurasse consolo noutros lugares, onde os gostos fossem mais de encontro aos seus, deixando-a de lado e esquecida.

Isso mudaria, se ele a tivesse ouvido. Ela sabia que sim. Apesar de tudo, ela ainda tinha uma ou outra técnica que fazia com que o conseguisse controlar. Acabava por ter tudo o que queria. Ao longo dos anos de namoro que foram partilhando, ela criou uma vedação à volta da relação que não o deixava abrir o portão e sair. Ela foi provando o seu valor e era impossível que ele o negasse.

Desfazendo estes pensamentos, encaminhou-se para o banho. Demoraria a preparar-se. Tudo tinha de estar perfeito. Incluído ela própria. Queria surpreende-lo.

Vestiu-se, maquilhou-se.

Quando saiu da casa de banho, voltou a olhar o relógio. Mais meia hora e ele abriria a porta de casa. Sorriu para si com o anseio de ver o espanto na cara do namorado.

Deambulou pela casa e voltou a reparar nas cartas.

Começavam a intrigá-la. Todos aqueles envelopes. Todos vindos da mesma pessoa. Todos dirigidos a ele.

Do que é que ele estaria à espera? Seria algum problema de saúde? Neste pensamento, desenfreadamente, começou a abrir todos os envelopes.

Quando todas as folhas estavam amontoadas e corretamente abertas pela mesa de jantar, por cima dos pratos que ela tinha colocado, e com a luz das velas a criar tons vermelhos e rosa que se propagavam nos papéis, enquanto os envelopes rasgados tinham caído no chão, apercebeu-se que cada pedaço de folha A4 não eram mais que fotografias do namorado com outras mulheres, que ela nunca antes tinha visto. Existiam ainda, outras folhas, repletas de conversas mantidas ao longo dos últimos seis meses, com mais de dez pessoas diferentes. Em todas elas havia menção a hotéis da cidade, encontros em cafés escondidos, horas marcadas que ela lembrava que ele tinha preenchido com trabalho. Nomes de diferentes mulheres percorriam a última folha que estava em cima da mesa. Aí pode ler mais de dez nomes femininos que ela nunca tinha ouvido, mas que voltando atrás, acabavam por estar em concordância com algumas das conversas que preenchiam as outras folhas.

Devagar, olhou o relógio. Quinze minutos até ele chegar.

Pegou nos envelopes e deitando quatro ao lixo, guardou apenas um na mala.

Agrupou todas as folhas e dobrou-as ao meio.

Tentou espalhar as velas por todos os recantos da casa.

Nas gavetas procurou uma caixa de fósforos que estivesse integral.

Nos armários, procurou algo que pudesse espalhar pelo chão da casa e que fizesse propagar o fogo que iria queimar o apartamento.

Antes de fechar a porta do apartamento, ligou aos bombeiros relatando a ocorrência. Porém, ela sabia que já viriam tarde demais para salvar o conteúdo daquele lugar.

Quando saiu pela porta do prédio, com o vestido novo que tinha comprado, a dançar ao vento do fim do dia, encontrou-o a sair do carro. Ele tinha acabado de chegar.

Olhou-a e disse-lhe como ela estava bonita. Abraçou-a. Ela deixou-se abraçar. Quando se soltou dos braços dele, retirou o pequeno amontoado de folhas dobradas ao meio e encostou as mesmas ao peito dele. Em seguida, com o dedo indicou-lhe a janela do apartamento. Do outro lado, chamas vivas de um laranja profundo, misturado com um fumo intenso e cinzento brotavam do interior do apartamento do segundo andar daquele complexo habitacional.

Ela continuou a caminhar. Ele gritou, perguntando-lhe o que ela tinha feito.

Quando os bombeiros chegaram já era tarde demais.

Ele nada salvou.

Mas nas mãos continuavam as imensas folhas de papel. Abriu-as.

E lá viu a sua vida dupla.

Nas costas da última folha estava escrito: Feliz Dia dos Namorados.

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