Fevereiro 2016

Campos Elíseos

Sabias que a luz do sol é diferente em Paris? Senti isso da primeira vez, mas no fim do meu segundo ano de faculdade, quando voltei àquela cidade, comecei a chorar no aeroporto, como choram os filhos perdidos quando finalmente encontram a mãe. A minha mãe é só uma e nunca ninguém a irá substituir, mas o meu lar, o meu lar é em Paris.

Soube que te amava desde que me puxaste o cabelo na sala da professora Teresa. Fizeste-o porque o rufião do Zé te desafiou: “Não és homem não és nada!”.

 O Zé nunca soube que me pediste desculpa no caminho para a cantina e me deste uma flor. Também nunca percebeu muito bem porque o atiraste ao chão no dia em que me apalpou o peito, mas nunca mais o fez. Os rapazes só percebem bem os limites quando eles são definidos por outros rapazes e isso é algo que eu nunca irei perceber.

Quando chegou a hora de passarmos para o 5º ano e tivemos de fazer escolhas, escolhemos Francês como língua estrangeira na esperança de ficarmos na mesma turma. Não parecia, pelo menos naquela altura, que o Inglês se fosse transformar na potência linguística que é hoje. E nas revistas da minha mãe, havia algo muito atractivo e romântico na Torre Eiffel. E claro, amour soa muito mais apaixonado que love, je t’aime é muito mais bonito e musical que i love you.

Aprendemos a cantar Oh Champs-Élysées! em coro e por entre aulas, nos bancos de pedra nas traseiras da escola, onde os namorados se escondiam da censura dos professores, fazíamos planos de um dia, quando eu fosse uma escritora famosa e tu um pintor de renome, passearmos de mãos juntas com boinas a condizer, ao sol ou por entre a chuva, ao meio-dia ou à meia-noite, por esses Campos Elíseos para nos abastecermos de baguettes e croissants. Oh sim, com a cabeça no teu colo enquanto me afagavas o cabelo, eu sonhava e sorria. E era feliz.

No 9º ano recebemos na nossa escola uma aluna transferida. E ela trouxe mini-saias, trouxe a boca pintada de vermelho, de um vermelho que nem a minha mãe usava quando saia com o meu pai para dançar. Mais que isso, e sei-o melhor agora, ela trouxe uma vontade firme de marcar território. Tu foste o escolhido e meia dúzia de dias depois, deixaste-me sozinha naquele banco que era nosso, deixaste-me a chorar porque só me querias como amiga, porque ias sempre gostar de mim, mas ela fazia-te sentir algo novo e diferente.

Senti-me uma viúva. 14 anos e viúva em vida de um rapaz parvo que trocou o sonho que tínhamos por um frenesim nas partes baixas. A minha mãe disse-me que todos os rapazes são estúpidos e que eu não tenho de mudar para que eles gostem mais de mim. O meu pai perguntou-me onde é que tu vivias para te ir lá dar um acerto, mas a minha mãe disse-lhe que o pior castigo que terias, seria o de me perder. “Vês, um dia vais encontrar um rapaz que seja menos estúpido que os outros e que perceba que há pessoas pelas quais devemos sempre fazer mais e melhor, como eu encontrei o teu pai.” Só a minha mãe faria de uma ofensa uma lição com graça. Credo, como sinto saudades dela!

Durante todo o resto desse ano lectivo, tive de suportar a visão de ti com dela, aos beijos no banco que era nosso, no corredor, no portão, na cantina. As minhas amigas diziam que vocês eram uns porcos e de certeza que “o” andavam a fazer. Depois olhavam para mim, com os olhos brilhantes, à espera que eu me queixasse, que vos ofendesse, que chorasse. Não conservei nenhuma delas no meu rol de amizades. Mas queixei-me, ofendi-te, praguejei e chorei. No meu quarto e nas páginas dos meus cadernos, enchi-as de poemas pejados de dor e saudade, vezes houve em que rasguei as folhas com a força com que escrevia, como se o não o fazer, me fizesse explodir e quebrar.

Quando as férias grandes chegaram e mudar de escola se tornou obrigatório, pedi à minha mãe para me mandar para um lugar um pouco mais longe, para onde fosse menos provável encontrar alguém conhecido. Lembro-me que me olhou com aquele olhos grandes e castanhos cheios de amor e disse que sim, sem sequer pensar no trabalho acrescido que isso lhe pudesse dar. Segui Humanísticas e continuei a escrever, muitas vezes para ti. Não, eu escrevi para a parte de ti que tinha sido minha companheira, para o teu eu que me desenhou a carvão mais do que uma vez, para o génio que olhando uma paisagem bonita, pintava um mundo vivo e a cores palpáveis.

A minha vida não ficou suspensa. Apanhava o autocarro cedo e entrei num clube de leitura e escrita, numa altura em que nem se chamava assim, chamava-se uns quantos marrões a ler livros e a escrever sobre eles. Quando chegava, algo tarde, tinha de sair na paragem da tua rua, duas ruas atrás da minha, e passar pelo jardim. Via-te lá, com rapazes parvos que me assobiavam ao passar e raparigas penduradas neles, como se fossem deuses do rock. Estavas com ela, sempre com ela. Por um lado, sossegava-me o facto de não me teres trocado por algo passageiro mas por outro… Sim, pensava e idealizava o dia em que virias atrás de mim, pedindo perdão, uma segunda oportunidade. E, embora isso faça a minha mãe dar voltas no caixão, debatia-me com o amor que ainda te tinha e com o facto de te querer comigo.

Mas tu não vieste, passaste a fingir que não me conhecias e não obstante a tua vontade no dia em que me partiste o coração, nunca mais fomos amigos. O secundário terminou e eu entrei em Comunicação Social sem nunca parar de escrever. Frequentava agora os cafés dos artistas e conheci pessoas que partilhavam da minha paixão, que se embrenhavam por entre páginas e palavras e sentiam tudo com uma certa compulsão, com um espírito aberto e ainda muito romântico, embora nascesse já naquela altura o culto do corpo e da carne.

Aos 18 anos visitei Paris pela primeira vez, a minha prima era casada com um homem que arranjou trabalho por lá na construção civil e passei uma semana com eles. Vi a Torre e subi lá acima, passeei pelos Campos, cantei sobre eles, comprei baguettes e croissants! Pensei em ti todos os dias e num instinto mais forte que a dor de não te ter ali, entrei numa editora e entreguei um poema em francês à senhora da recepção. Deixei a morada da minha prima e o número de telefone. Dois dias depois de ter voltado, a minha prima ligou aos gritinhos porque os senhores franceses queriam mais poemas para publicar num jornal! Passei a enviar-lhes os poemas por carta e eles davam o dinheiro à minha prima. Acreditas que o meu nome aparecia por baixo do título de cada um deles?! A minha prima comprou e guardou todos os jornais para mim, abençoada criatura.

Sabias que a luz do sol é diferente em Paris? Senti isso da primeira vez, mas no fim do meu segundo ano de faculdade, quando voltei àquela cidade, comecei a chorar no aeroporto, como choram os filhos perdidos quando finalmente encontram a mãe. A minha mãe é só uma e nunca ninguém a irá substituir, mas o meu lar, o meu lar é em Paris. Acho que sempre o soube, desde os nossos devaneios juntos, embora acreditasse que seria o nosso lar. Se visses as paisagens que poderias pintar, se visses as pessoas que poderias retratar, talvez te levantasses do jardim escuro e sujo, talvez tirasses os cigarros da boca e talvez tomasses banho. Se soubesses que a vida que um dia sonhaste ter estava mais perto do que a imaginação faz pensar, talvez não roubasses nem envergonhasses a tua família, talvez não te enchesses de vícios. E talvez voltasses a pintar, talvez voltasses a sonhar, talvez, só porque sim, voltasses a ser feliz.

Nunca deixei de te amar. Foi por isso que trouxe flores à tua campa e dei um abraço à tua mãe, desorientada entre o vazio sufocante de perder o único filho e a tristeza de teres sido tu a iniciar a escaramuça puxando do canivete primeiro, na valentia que vem com o álcool em demasia e uma voz que te incita a um nível de estupidez acima daquele de que já és capaz por natureza. “Não és homem não és nada!”. Para mim tu nunca foste nada, foste sempre tudo. E vejo-te em tudo o que escrevo, o que de bom conheci de ti e o que de fantástico imaginei para ti, fazem parte de mim.

 Oh Champs-Elysées…

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