Fevereiro 2016

La Havaneza

Quando Chiquita recorria ao seu nome completo, sabia que estava na altura de racionar a bebida que tinha no copo e de aceitar que aquelas seriam as últimas gotas de álcool que o seu fígado absorveria naquele dia. Na verdade, tinham construído, ao longos dos anos, uma relação bastante funcional, ele e Chiquita.

Havana vivia naquele ano um dos verões mais quentes de que havia memória. As suas ruas coloridas repletas das mais estranhas e memoráveis personagens – como a velha Dolores, a ex-prostituta que se sentava junto à praça de táxis a fumar charutos aparentemente o dia todo – pareciam, à luz daquele sol abrasador, pertencer àquela cidade mágica hoje mais que nunca.

Dobrando uma esquina que ia desaguar na praça principal – a dos táxis que faziam companhia a Dolores -, Manolo suspirou de alívio ao dar o dia de trabalho por terminado. Era verão, ainda estava sol e fazia muito calor. Não tinha nenhuma mulher, muito menos pirralhos à sua espera em casa e estava sedento, tanto de bebida como de alguma interação humana.
Virou a esquina e entrou na velhinha La Havaneza.

Chiquita, o habitual, se faz favor!

Chiquita trabalhava naquela casa desde que Manolo não passava de um catraio. Na sua juventude, tinha-lhe arrancado um número respeitável de suspiros e, apesar de já ter passado há muito dos seus quarentas e poucos, continuava a ser uma mulher desejável, ainda capaz de suscitar alguns pensamentos lascivos quando a bebida baixava a sua guarda. Nada a que a mulher mais velha não estivesse habituada e que recusasse com um safanão e as palavras do costume:

– Nem pensar, Manolo Díaz Benítez!

Quando Chiquita recorria ao seu nome completo, sabia que estava na altura de racionar a bebida que tinha no copo e de aceitar que aquelas seriam as últimas gotas de álcool que o seu fígado absorveria naquele dia. Na verdade, tinham construído, ao longos dos anos, uma relação bastante funcional, ele e Chiquita.
Apesar de tudo, quando voltava ao seu estado normal de sobriedade, não era Chiquita que desejava para partilhar a sua vida. Nem Chiquita nem ninguém que conhecera ainda, sabia-o agora.

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Dois quarteirões abaixo, María Rey Cabrera fazia a mala evitando pensar muito mais. “As mulheres respeitáveis não andam a abanar o corpo numa boite numa esquina qualquer. Nenhum homem respeitável quer casar-se com uma bailarina!”, berrara a mãe em mais ocasiões do que aquelas que conseguia recordar naquele momento. Durante muito tempo, as duras palavra da mãe surtiram o efeito desejado. Durante anos, tinham garantido que María viveria no medo de ficar para tia e que esse medo seria maior que o desejo de seguir o seu sonho. No entanto, nenhum dia se passara em que María não se imaginasse a dançar para uma plateia. Dançar era tudo o queria. Dançar era a sua verdadeira paixão e chegara agora a uma fase da sua vida em que duvidava fortemente que algum homem despertasse em si algo sequer parecido.

E, com isto, María saiu de casa, preparada para uma vida de solteira apenas com as bolhas nos pés como companhia.

Percorreu as ruas que separavam a casa dos pais da La Havaneza a pé, dobrou a esquina e escancarou a porta do La Havaneza.

Chiquita, quando começo?

Nessa mesma noite começaria – à experiência -, uma longa carreira como bailarina naquele estabelecimento, o mais reconhecido e antigo de Havana.
María nunca chegaria a ser uma bailarina famosa, mas ganharia todas as bolhas sobre as quais a mãe sempre a prevenira e mais algumas, mas ganharia também um marido.
Na véspera do seu primeiro dia de trabalho, conhecera Manolo, que beberricava sozinho uma cerveja gelada ao balcão.

O amor não surgiu como nos romances picantes que a empregada da mãe lhe emprestava às escondidas da patroa, mas foi construído ao longo de muito tempo e de muitas outras cervejas que Manolo usou como pretexto para prolongar as visitas à sua amada María que – e isto Manolo soube à primeira vista – era melhor bailarina do mundo.

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