Domingo é para ir à missa

Levanta pó, velocidade, raspa aqui, raspa ali, continua que não dói, mas o corpo apercebe-se. Pousa as mãos em cima dos joelhos arfando, olha para o céu e o nome dela esbofeteia-o como chicote de carruagem, a galope, novamente, até à igreja, sem parar.

Era Domingo e acordara com preguiça. Não lhe apetecia ir à missa. Os sapatos estavam rotos, a distância até à igreja era longa, estava friorento debaixo da manta e a condensação na janela não previa miminhos de sol à flor da pele lá fora. Deixou-se ficar na cama até que a mãe lhe trouxe a cevada e lhe disse que o vizinho andava à procura dele. As coisas melhoravam com a cevada. Toc-toc-toc e o quarto cheirava bem. Abriu a janela e ao mesmo tempo que o cheiro saía do quarto, uma lufada de ar fresco e a cabeçorra do vizinho invadiam-lhe o espaço. O vizinho disse-lhe sem mais nem menos para ele se despachar que ela ia à missa. Ai ela ia à missa? Ó diabo! Duas polidelas nos sapatos, apertar camisa, enfiar calças, entalar camisa dentro das calças, cinto à cintura, duas lambidelas à frente no cabelo e uma atrás no cucuruto. Porta fora! Zás! Desaperta dois botões da camisa! Aí vai ele!

Corrida desenfreada junto ao ribeiro. Erva alta no caminho é obstáculo, salta para a pedra e da pedra para a margem e da margem para a pedra. Perícia, velocidade. Continua sempre em frente até ao açude, equilibrado em cima da levada, corta à direita, mergulha pelo meio dos arbustos, levanta-se e sobe a encosta que é íngreme. Upa por entre as árvores e os arbustos até ao trilho das cabras sempre a subir até ao cimo. Levanta pó, velocidade, raspa aqui, raspa ali, continua que não dói, mas o corpo apercebe-se. Pousa as mãos em cima dos joelhos arfando, olha para o céu e o nome dela esbofeteia-o como chicote de carruagem, a galope, novamente, até à igreja, sem parar.

No largo, com os joelhos a fraquejar e de perna dorida, recompõe-se. Duas lambidelas no cabelo à frente e uma atrás.  Ajeita a camisa, aperta os botões até ao pescoço, sacode o pó da roupa e bate com os sapatos. Para a frente é que é o caminho! Pé direito dentro da igreja e, de olhar esgazeado, não precisou de a procurar.

Há quinze minutos, desde que se sentara, que não fazia outra coisa. Olhava para trás e ele ainda não tinha chegado. Olhava para trás e ele ainda não tinha chegado. Olhava para trás e ele ainda não tinha chegado. Olhava para trás e ele ainda não tinha chegado. Teria que repetir mais uma centena de vezes esta frase até perfazer o número de vezes que ela tinha conferido a entrada da igreja. Quando o avistou, no largo, a lamber a mão para ajeitar o cabelo, desatou a sorrir. Tolinha, parvinha, não parou de o seguir com os olhos e recebeu-o com um sorriso. Ele, tímido, olhou para o chão.

Entra o padre, as velhas começam a cantar.

Oremos, irmãos.

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