Amanhã, talvez…

Ele tão pouco se despedia depois de vestida a máscara, já não era o seu amor, mas sim o senhor de tudo e de todos e não gostava sequer de ser recordado das suas fragilidades. Ela baixava a cabeça enquanto abria a porta para ele passar, um hábito impossível de perder.

Ela era a sua rainha. Ali, corpos nus em solo rude, ela comandava a sua vida. Amor, suor, cheiros doces e agrestes rodeavam aqueles momentos únicos, tão seus, qual bolha, que os abrigava do exterior. Todos quantos fossem seus desígnios, ali ela era a imperatriz da sua vida. E no meio de gargalhadas ofegantes, tudo o que ela lhe pudesse pedir, seria ali realizado. Impossível negar-lhe fosse o que fosse. Que exércitos marchassem sobre povoações e bibliotecas queimassem os seus livros, que as igrejas fechassem as suas portas e os vendedores do mercado distribuíssem, de graça, os seus bens, se fosse essa a sua vontade. Perante ela, ele mais não era que um servo pronto a caminhar desertos e enfrentar tempestades na demanda de agradar o seu pequeno coração.

As faces rosadas e finas fingiam uma austeridade que não lhe era natural mas que o faziam rir de todas as vezes. A sua graça e feminilidade descontraídas eram o porto de abrigo que precisava para ser ele mesmo. Ainda que por pouco tempo e apenas ali, na bolha. Ela passava os dedos finos no seu cabelo e acariciava o seu pescoço. E acompanhava com a ponta do dedo as estradas traçadas por muitas e longas batalhas nas suas costas.

Ela não o temia como os outros. Para dizer a verdade sequer o respeitava como os outros, para ela, ele mais não era que ele mesmo, ali, naquele momento, nu, deitado num leito simples, improvisado no chão. E ele gostava de ser assim, normal, só ele mesmo, durante algum tempo. Sem decidir, sem julgar, sem bajulações idiotas e cínicas.Ela sabia que aquilo que ele era ali, jamais podia replicar fora.

Mas o tempo teimava em passar mais rápido por entre caricias e gargalhadas, e o sol depressa nascia sem que eles tivessem tempo de sequer fechar os olhos. Ela já sabia, quando o sorriso abandonava a face dele, e ele lhe pedia as suas vestes, que o seu tempo estava a terminar. Era hora de voltarem a por as suas máscaras. Ele de senhor soberano de todo aquele reino, e ela de aia da sua excelsa esposa, a rainha.

Ele tão pouco se despedia depois de vestida a máscara, já não era o seu amor, mas sim o senhor de tudo e de todos e não gostava sequer de ser recordado das suas fragilidades. Ela baixava a cabeça enquanto abria a porta para ele passar, um hábito impossível de perder.

Não sabia quando voltaria a ver o seu amor, nunca sabia quando ele conseguiria ser mais forte que a máscara de rei. Amanhã, talvez…

 

 

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