Química

Agora, paradas a olhar para a vitrina, a coragem falhara. Já não tinha 20 anos, os cabelos brancos, apesar de escondidos pela tinta, não a deixavam esquecer que o tempo passara. E se ele a achasse louca? Afinal do que vinha ela à procura? Não o conhecia, não sabia nada dele, e até as feições já se confundiam no baú das recordações. Tinham ido até ali para quê?

Ali estavam elas, sentadas no carro a olhar para o outro lado da rua. Sentiam-se como duas adolescentes.

Amigas de sempre, tinham viajado mais de duzentos quilómetros e agora não conseguiam sair do carro.

Do outro lado lia-se em letras garrafais numa vitrina em tons de azul e amarelo “Clínica Veterinária João Abrantes”.  No carro não havia nenhum animal doente, só elas as duas, a sentirem-se loucas, com ar comprometido e em silencio. Olhavam uma para a outra, à procura da coisa certa para dizer, mas naquela altura já tudo tinha sido dito. Tinham tecido todo um mundo de possibilidades e hipóteses em conjunto, entre risadas cúmplices. Só faltava a coragem para avançar.

O riso descontrolado, tinha acabado juntamente com as piadas sobre a possibilidade de ele estar gordo e careca. Nem uma foto tinham conseguido encontrar na Net, apesar de terem vasculhado os sítios mais óbvios.

Só tinham excluído a possibilidade de ele ser casado porque ligaram previamente, a pedir para falar com a esposa e a resposta tinha sido : “ deve ser engano porque o dr. Abrantes não é casado!”.

Nem se lembravam de quem tinha sido a ideia de empreender tão alucinante saga.

Já era absurdo o suficiente a Maria ter-se lembrado dele passado 20 anos depois de o ter conhecido, (e visto pela ultima vez), e a Sofia ter apoiado a ideia de o reencontrar.

A ideia tinha-lhe surgido assim, do nada. Ou melhor, do nada não. Química. A culpa era da química. Calhara em conversa recentemente que numa relação amorosa a química era o mais importante. Ela, que sempre achara que o amor era o mais importante, ficou a pensar nisso da química.

Depois de uma retrospectiva ao passado afectivo procurou os homens por quem tinha sentido isso da química.

João fora o nome que lhe surgira de imediato, pois nunca tinha sentido nada assim, nem nunca mais voltara a sentir. Conhecera-o através de um amigo num bar. Mal cruzaram o olhar, a energia que os atravessava parecia quase palpável. Ela não conseguia explicar o fenómeno, nem deixar de olhar para ele apesar de o tentar fazer discretamente. O grupo à mesa era grande, a musica estava alta, era quase impossível manter uma conversa.

Naquela meia hora não falaram. Seguiram com os amigos para a discoteca e ali mantiveram-se afastados. Cada um com os seus.  A dada altura, ficaram tão próximos a dançar que era quase impossível não se tocarem. O inevitável aconteceu. Ficaram frente a frente quase encostados, e mal os olhares se cruzaram, saltaram para os braços um do outro e nunca mais se conseguiram largar. O primeiro beijo abalou-a de tal forma que deixou de sentir o chão debaixo dos pés, por dentro quase ouviu uma explosão, sentia-se uma represa que finalmente rebenta, deixando a agua jorrar, arrastando tudo à frente. À sua volta nada mais existia, ela, sempre tão tímida não se reconhecia neste comportamento despudorado.  Saíram juntos, e juntos ficaram até de manhã, altura em que cada um teve que seguir o seu rumo, ela estava na sua cidade de férias, e ele de passagem com os amigos numa “road trip”, de mota. Para ele era hora de continuar viagem.

Perceberam que tinham Lisboa em comum, ele estava a acabar o curso de veterinária, e ela tinha começado a trabalhar nessa cidade. Combinaram ver-se em Setembro. Ela deu-lhe o numero de telefone da nova casa onde morava e ficou nas nuvens o resto das férias à espera “do telefonema”.

Quando regressou a Lisboa, percebeu que se tinha enganado no numero! Nem queria acreditar! Por um dígito! Como fora capaz de cometer um erro tão parvo?! O que iria ele pensar? Será que pensou ter sido propositado?

O tempo passou, naquela altura não havia facebook, nem telemóveis, nem nada. Nunca mais se viram…

Mas com a conversa da química, vieram-lhe à memória aquelas horas juntos, aqueles beijos escaldantes, aquela vontade quase incontrolável de se fundir com ele para apagar o fogo que a consumia. Já não era nenhuma menina, sabia que a probabilidade de o encontrar descomprometido era pequena, e a de ele se lembrar e estar disposto a falar com ela ainda era menor…

Lembrava-se do nome dele. Lembrava-se da cidade onde morava. Lembrava-se que estava a estudar medicina Veterinária. Tentou a sorte, procurou através do Google e encontrou: “João Abrantes clínica veterinária”. Só podia ser ele.

Contou a história á sua amiga de sempre, a Sofia. Ela, aventureira destemida não foi de meias medidas. “temos que lá ir, tens que tirar isso a limpo.”

“Mas e se ele já nem se lembra de mim?”. No fundo ela não estava assim tão segura, e se tinha imaginado tudo? E se só ela se tinha sentido assim?

“Se o que contas é verdade, lembra com certeza.”

“Mas e se pensa que lhe dei o numero errado de propósito?” esse era o seu maior receio, ter sido mal interpretada.

“Nunca é tarde para esclarecer um erro.” Na verdade não tinha nada a perder. Bastava perder a vergonha e ir lá.

A Maria sabia que ao envolver a amiga nesta história, já não havia forma de voltar atrás. Qualquer que fosse a sua objecção, a amiga sedenta de aventuras, (mesmo que fossem aventuras alheias), arranjava sempre resposta.

Agora, paradas a olhar para a vitrina, a coragem falhara. Já não tinha 20 anos, os cabelos brancos, apesar de escondidos pela tinta, não a deixavam esquecer que o tempo passara. E se ele a achasse louca? Afinal do que vinha ela à procura? Não o conhecia, não sabia nada dele, e até as feições já se confundiam no baú das recordações. Tinham ido até ali para quê?

Não valia a pena prolongar mais o sofrimento, respirou fundo, olhou para a amiga que esbracejava a dizer-lhe vai, e saiu do carro.

Atravessou a estrada com passos apressados, parou em frente ao vidro espelhado da porta, ajeitou o cabelo, observou o perfil (ainda) elegante e entrou. Naquele instante decidiu que fosse qual fosse o resultado, já que a vida tem o seu quê de arrependimento, ao menos que esse arrependimento seja daquilo que fazemos, e nunca do que deixamos por fazer.

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