Fevereiro 2016

Viver mascarado

Tomou-a, como tomam os piratas sanguinários uma embarcação que não lhes pertence: não fazendo prisioneiros. Ela já não pedia por favor, já não lhe implorava que parasse, apenas tentava defender o rosto

Com a porta fechada, ela sentou-se defronte do espelho e começou o ritual. Os discos de algodão embebidos em desmaquilhante arrastavam a base, o corrector, o blush, o iluminador, o pó de contorno. Os olhos demoraram mais, a sombra escura, o eyeliner preto como breu, a máscara à prova de água. Tinha de comprar mais discos e mais desmaquilhante, pensou enquanto olhava para si mesma, despojada da máscara que usava todos os dias. Sem ela, os hematomas tomavam forma, surgiam de todos os lados e fazendo-na feia, mutilada. Começou a despir-se e as marcas continuaram a vir à superfície, a roupa fazia parte da máscara, mangas nunca mais curtas que 3/4, nada de decotes, saias só por baixo do joelho. O cabelo era sempre usado solto, a parte de trás do pescoço era um dos soft spots da raiva.

 Seguiu para a casa de banho adjunta ao quarto e debaixo da água quente da cabine de duche, com a dor da pressão nas nódoas negras, chorou, primeiro de forma miúda e depois ascendeu a um choro histérico, compulsivo. Lembrou-se dos filhos, já deitados e tapou a boca com ambas as mãos, tentando parar o choro de alta velocidade. Tinha de parar. Se não parasse, os olhos iam inchar e ela não ia poder sair do quarto amanhã. Secou-se e vestiu o pijama de seda que ele gostava.
 Ele. Tinha ido sair com os amigos do tempo da polícia depois do jantar. Ela não ficou com as mulheres deles, escusou-se com uma enxaqueca mas estava a fazer o que ele queria e ele não a queria com gente à volta sem ele. Sabia o que iam dizer dela: “emproada”, “tem a mania”, “só porque fez filmes e o marido tem dinheiro, acha que é melhor que nós”. As mulheres não são muito simpáticas umas para as outras. Tomou um comprimido para dormir e deitou-se.
 Eram quatro da manhã quando ele entrou no quarto. Ainda vestido e calçado, puxou a roupa de cama de cima dela e pegou-lhe pelos cabelos até a atirar para o chão. Não gritou, de noite seria muito mais fácil alguém se aperceber e ele, embora tomado pelo monstro do álcool, sabia o que estava a fazer. Rasgou-lhe o pijama enquanto a esbofeteava e a cada impulso de retracção dela, a raiva e a excitação cresciam nele. Tomou-a, como tomam os piratas sanguinários uma embarcação que não lhes pertence: não fazendo prisioneiros. Ela já não pedia por favor, já não lhe implorava que parasse, apenas tentava defender o rosto. Enquanto ele se metia nela como o intruso que era, ela fingia que não estava ali, ela rezava não engravidar novamente, ela pedia para morrer.
 Quando ficou satisfeito, o covarde levantou-se e deixou-a ali, num misto de fluídos, com dores em todo o corpo. Quando voltou do duche rápido e ela já estava na cama, robot quebrado que era, atirou-lhe:
– Para a próxima tens de ser mais simpática no jantar. O Mendes perguntou-me se na cama também eras assim tão sem sal, era suposto uma estrela de cinema ser mais carismática mas tu não és uma estrela e não és especial para ninguém. Por tua causa gozaram comigo!
 Ela percebeu, no instante em que durou aquela exclamação, ela percebeu o que aí vinha. A mão dele caiu-lhe fortemente no rosto, uma e outra vez, primeiro aberta para aquecer mas logo se fechou num punho que a sovou no estômago, por cima de marcas ainda não saradas. Quando ela vomitou, ele deu a tarefa por terminada.
– Tu não aprendes nunca, isto é tudo culpa tua.
 Na manhã seguinte ela já estava maquilhada quando ele saiu do duche, era um novo dia de um carnaval muito pessoal. Tomavam o pequeno almoço e ele brincava com os gémeos enquanto os incitava a comerem tudo “para crescerem fortes e valentes, como o papá!”. Os meninos idolatravam-no, de uma forma que apenas as crianças conseguem fazer. E não se podia dizer dele que não amasse os filhos mas para um psicopata do género dele, ter filhos não era ser paternal, era a forma de mostrar ao mundo que era normal, um homem de família.
 Ele não era normal. Ele era uma estrela em ascensão (e por isso se melindrava quando essa palavra era associada a ela), um inspector genial na polícia e agora que trabalhava para o Ministério Público, um investigador exemplar. Conhecido por ser firme mas justo, tinha vindo de um meio com algum dinheiro e teve uma educação de nível superior, conhecia todos os que era importante conhecer em cada um dos lados e servia de exemplo e modelo a seguir. Quando as revistas noticiaram o seu envolvimento e casamento com uma das mais belas e tenazes actrizes do país, a sua popularidade junto daquilo a que se chama povo, cresceu exponencialmente. Embora tenha sido propositado, era um ressentimento latente: as mulheres não tinham o direito de ofuscar os homens, principalmente homens brilhantes e destinados à grandeza como ele.
 Ela pensou que estava num conto de fadas, o príncipe tinha finalmente chegado e era hora de deixar os sapos de lado. Conheceram-se por intermédio do advogado da agente dela num evento e o magnetismo dele fascinou-a. Não era o homem mais bonito da sala mas era o que mais cabeças fazia rolar, as das mulheres por libido, as dos homens por respeito e despeito. No final da noite convidou-a para almoçar e a partir daí a memória dela ficou turva porque foi tudo muito rápido desde o primeiro encontro a morarem juntos, a casarem.
 Lembrou-se de tudo enquanto deixava os gémeos no colégio com a ama como companhia, era raro sair sozinha. Recordou como a ideia que ele lhe vendeu da vivenda com os armários de louça, os balouços no quintal e as juras de amor a levaram a deixar a representação. “Vais ser a melhor mãe do mundo e vais ter todo o tempo do mundo com os nossos filhos.” O maternalismo dentro dela apoderou-se da sua vontade de ser independente e aniquilou-a do seu adn. E depois lembrou-se da primeira chapada. Do primeiro pedido de desculpas. O quanto ele chorou. Mas o quanto o continuou a fazer e pela altura em que era prática recorrente, ela já não tinha amigos próximos, só saiam com os amigos dele e nem sempre ela podia ir. Deu por si enclausurada naquela vivenda bonita e fria.
 Quando engravidou, ele deixou de lhe tocar mas a violência verbal escalou. Ficou deprimida e apática e depois dos meninos nascerem, tomou uma mão cheia de comprimidos. E toda a gente soube. A imprensa caiu-lhe em cima e ele emitiu um comunicado a defendê-la e contribuiu monetariamente para uma instituição que lida com a depressão pós-parto. Um herói dos tempos modernos.
 Há dias em que não pode sair do quarto nem quando os gémeos batem à porta a pedir que vá brincar com eles. Mas a maquilhagem não consegue esconder o inchaço ou disfarçar os cortes que o anel de curso dele lhe deixa no rosto. Não tem telemóvel, a internet é limitada e controlada. Tem uma empregada que limpa e cozinha e uma ama para tomar conta dos pequenos.
 Ah!, os gémeos, os seus bebés, como estava fora de si ao tentar deixá-los, como se arrepende desse dia e como lhe dói todos os dias que não consegue estar com eles, a rir e a brincar. Ele nunca lhes tocou mas ela sabe que os meninos são curiosos e a curiosidade cresce à medida que eles próprios vão crescendo.
 Na cabeça dela só uma de duas coisas poderá acontecer: ou ele os manda para um colégio interno ou ela um dia tem um acidente. Comprimidos talvez. Ela toma um por dia para dormir, é tudo o que ele lhe deixa à mão, mais para a poder arrancar brutalmente do sono profundo do que o que quer que seja.
 Foi essa percepção que a fez deixar de os tomar, começando a escondê-los num encaixe da cama. Foi assim que conseguiu vê-lo a marcar o código do cofre do quarto quando ele a acreditava a dormir. Homens como ele gostam sempre de ter somas avultadas em casa, tem a ver com poder.
 Quando a ama apareceu em pranto por estar grávida e ter medo de ser despedida, ela tirou-lhe o teste das mãos e confortou-a “por agora não dizemos nada ao meu marido”. Foi esse teste que deu a ele e disse ser seu, sabendo que deixaria de lhe bater e que esperaria até as últimas marcas desaparecerem antes de a levar ao médico.
 Enquanto vestia a máscara da maquilhagem depois de uma noite sem brutalidade e revigorada por um sono decente, ela acenou para as marcas a desaparecerem no seu reflexo ao espelho “Sim, está na hora de terminar este baile.”.
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