Fevereiro 2016

Palavras

Puxo-te para mim, num abraço que pressinto ser o último, porque nem todos os amores são Amor e nem todas as noites são para ser memoráveis. As palavras já as gastámos e onde antes as conversas consumiam as horas, existe agora o silêncio.

Apanhámos, sem querer, o mesmo comboio. Entraste na carruagem em tal sobressalto que senti a tua presença ainda antes de te sentares no lugar ao lado. Lá fora, a chuva caía intensamente, alheia às tuas pressas, inundando os carris e as ruas desta cidade feita de sol e avessa aos rigores do Inverno.

Trocámos as primeiras palavras já algures no Ribatejo. Finalmente o temporal dava tréguas e à medida que o comboio ganhava velocidade, também a conversa ganhava corpo.

Vi-te, verdadeiramente, quando passávamos Coimbra B, levávamos já quase duzentos quilómetros de palavras. Primeiro tímidas, como quem não quer a coisa. Depois aos atropelos, pressentindo a proximidade da chegada ao destino.

Depois destes seguiram-se uns quantos quilómetros mais, em contramão. Viagem após viagem, noite após noite.

Mas parece que gastámos as palavras com as nossas conversas intermináveis pela noite dentro. Falávamos de tudo e de nada e nunca sobre nós. Talvez fosse esse o nosso segredo – nunca falarmos sobre nós. Um nós que não queríamos mas que, entre tantas viagens, teimava em existir.

“Talvez amanhã?” – Perguntaste  numa dessas noites, já eu prestes a adormecer. Respondi com uma vaga afirmativa.

Quando nada antecipava, falharam-nos as palavras e ainda meio perdida no sono volto àquela primeira carruagem, consigo ouvir o bater da chuva na janela do comboio, mas desta vez não te sinto.

Puxo-te para mim, num abraço que pressinto ser o último, porque nem todos os amores são Amor e nem todas as noites são para ser memoráveis. As palavras já as gastámos e onde antes as conversas consumiam as horas, existe agora o silêncio.

Aceitámos que tal como o palco da vida, também o Amor é repleto de faces e máscaras. Talvez por já não termos as palavras, mudámos de personagens e somos agora um para o outro, sem retrocesso, aquilo que nunca antes adivinhámos.

E depois do abraço, chega a razão e com ela a certeza de que amanhã quando acordarmos e formos nada, ficarão todos os quilómetros percorridos. Talvez se não tivéssemos gasto as palavras…

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