A Travessia

Rita, no auge da sua ingenuidade e provincianismo, imaginava a travessia do Tejo num pequeno barco a remos. A verdade é que nunca tinha ouvido falar sequer noutro tipo de barco e televisão era algo que a família não possuía.

Estávamos no inicio dos anos 60, quando Maria Rita, na altura com cerca de cinco anos, ouviu com bastante clareza a palavra “Lisboa”. A sua tia dissera à hora de jantar “Vamos para Lisboa!” e, sem saber bem o que isso significava, pareceu-lhe um local para onde gostava de ir. Era uma palavra bonita: Lisboa.

Ela era a mais nova de cinco irmãos, numa família com dificuldades, a viver no interior desterrado do país.  A cidade de Lisboa era o sonho da sua família, mas com o aproximar do dia da partida, acabou por se tornar o pesadelo de Maria Rita.

Só de Maria Rita. Lisboa que lhe soara de uma beleza inigualável, agora parecia-lhe um martírio. Foi-lhe dito que para chegarem a Lisboa teriam de atravessar o rio, ora se tinham de atravessar o rio, deveriam atravessá-lo de barco. Ela e toda a sua família, incluindo tios, primos e avós, dariam ao todo umas treze pessoas. “Treze pessoas num barco a remos?!” Isso assustava-a.

Rita, no auge da sua ingenuidade e provincianismo, imaginava a travessia do Tejo num pequeno barco a remos. A verdade é que nunca tinha ouvido falar sequer noutro tipo de barco e televisão era algo que a família não possuía.

Sabia que iriam de comboio e depois atravessariam o rio. Era uma  preocupação que a atormentava dia após dia. As águas do rio, escuras, turbulentas, cheias de mistério assombravam-na. Temia cair ao rio, temia que os barqueiros não tivessem força suficiente para remar até à outra margem, temia que o Rafi, o seu pastor alemão, não se portasse bem e saltasse para o rio. A viagem estava a aproximar-se e os seus medos cada vez eram maiores. 

Na manhã da viagem, não era só Maria Rita a miúda nervosa por atravessar o rio, muitas outras crianças, vindas dos campos, ou pequenas aldeias, desconfiadas de tantas coisas novas que estariam para vir, ansiavam pela chegada do barco. E nada como começar uma nova vida com uma grande surpresa.

Para muitas crianças, incluindo Maria Rita, esta viagem foi maravilhosa. Todos os seus medos se dissiparam. Do outro lado estava a promessa de uma vida melhor e tudo começou por aquela travessia.

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